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A obesidade tem resolução?

A obesidade é definida como índice de massa corpórea (IMC) acima de 30kg/m². Embora os índices de obesidade sigam crescendo de forma alarmante no mundo, muitos ainda torcem o nariz para seu tratamento, dizendo que não há segredo, basta “comer menos e se exercitar mais”. Ter esse pensamento não é algo benigno, pois afasta de tratamento pessoas que poderiam se beneficiar. E a ideia de que perder e manter o peso é simples não tem qualquer base científica. Pelo contrário: há boas evidências que a obesidade é uma “mão de via única” em que o ganho de peso é muito mais provável que a perda, populacionalmente.

A busca por um corpo mais saudável e esteticamente agradável é uma jornada pessoal que muitos empreendem. Para aqueles que enfrentam a obesidade, perder peso pode parecer a solução definitiva, entretanto, o desafio real muitas vezes começa após a perda de quilos. Manter o peso perdido exige disciplina, perseverança e uma compreensão profunda das complexidades envolvidas. Neste texto, exploramos por que perder peso é apenas o primeiro passo em uma jornada mais longa e desafiadora.



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Manter o peso perdido é a parte mais desafiadora do tratamento da obesidade

A obesidade não é apenas uma preocupação estética, mas também uma questão de saúde. A perda de peso pode trazer benefícios significativos, como a redução do risco de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e outras condições relacionadas à obesidade. Para muitos, a perda de peso é vista como a porta de entrada para uma vida mais saudável, e é nesse ponto que a atenção é predominantemente focada.

No entanto, a realidade da manutenção de peso muitas vezes se revela um desafio formidável. Estudos têm demonstrado que a maioria das pessoas que perdem peso acaba recuperando parte ou a totalidade dele ao longo do tempo. Isso ocorre por uma série de razões, incluindo mudanças no metabolismo, desafios emocionais, influências ambientais e o próprio corpo resistindo às perdas significativas de peso.

Panorama da Obesidade Segundo a Literatura Científica

Recentemente o estudo Probability of 5% or Greater Weight Loss or BMI Reduction to Healthy Weight Among Adults With Overweight or Obesity, publicado dia 1 de Agosto de 2023 na revista JAMA Network Open, se debruçou sobre isso com dados de prontuário americanos, com análise de peso de indivíduos por pelo menos três anos. Não eram pessoas que estavam em tratamento da obesidade (alguns poderiam estar) mas aqueles que passavam em visitas médicas e tinham seu peso coletado.

Os resultados deste estudo de coorte indicam que a probabilidade anual de 5% ou mais de perda de peso foi baixa (1 em 10 pessoas). Apesar dos benefícios conhecidos da perda de peso clinicamente significativa, 5% de perda de peso foi mais provável do que a redução do IMC para o saudável, especialmente para pacientes com os maiores IMC. Portanto, nós médicos e nutricionistas precisamos melhorar os esforços e nos concentrarmos em mensagens e intervenções que visam a perda de peso clinicamente significativa (ou seja, ≥5%) para adultos em qualquer nível de excesso de peso.

Dessa forma, o estudo revelou que a probabilidade anual de alguém com sobrepeso ou obesidade atingir 5% de perda era de apenas 10% do peso. Com isso, esse índice era um pouco maior naqueles com mais de 45 de IMC, em que essa perda é insuficiente. Ou seja, quanto à probabilidade de alcançar peso normal, os dados assustam: com IMC entre 30-35, em homens 1/236, e em mulheres 1/154. Acima de 40, esse número é menos de 1/1000.

É importante destacar que esse estudo não foi de pessoas que ativamente buscaram tratamento, em que os índices são bem maiores de sucesso. E que a ideia de trazer esses números não é desanimar, mas sim pontuar que perder peso não é natural é fácil, e buscar tratamento não deve ser visto como fracasso e o objetivo do tratamento é melhorar a saúde e qualidade de vida e não normalizar IMC.

Entendendo que ter facilidade de engordar e dificuldade de emagrecer é uma regra e não uma exceção, fica muito mais fácil aceitar buscar ajuda e iniciar um plano de tratamento, baseado em evidências e não em achismos de amigos e familiares.

A relação entre a obesidade e as questões emocionais muitas vezes persiste após a perda de peso. A pressão social, a baixa autoestima e os hábitos alimentares emocionais podem persistir, tornando a manutenção do peso perdido uma tarefa ainda mais árdua. A sensação de estar em constante vigilância sobre a dieta e o peso pode levar a um estresse adicional, às vezes resultando em episódios de compulsão alimentar ou dietas restritivas extremas.

Perceber que manter o peso perdido é um desafio contínuo é o primeiro passo para lidar com essa realidade. Educação sobre a importância da mudança de estilo de vida a longo prazo, em vez de depender de dietas extremas, é fundamental. Ter o apoio de profissionais de saúde, como nutricionistas e psicólogos, pode auxiliar na adoção de hábitos saudáveis de maneira sustentável.

A jornada da obesidade para a perda de peso é apenas o começo de uma trajetória complexa. Manter o peso perdido exige dedicação contínua, compreensão das armadilhas que podem surgir e uma abordagem equilibrada que envolve tanto o corpo quanto a mente. Enquanto perder peso pode ser um caminho relativamente linear, a manutenção exige uma compreensão mais profunda de si mesmo, de seus hábitos alimentares e emocionais, e das influências que moldam suas escolhas. É através da educação, do apoio e do compromisso com uma vida saudável que podemos enfrentar os desafios da manutenção de peso e criar um estilo de vida que perdura ao longo do tempo.

Referência Bibliográfica 

Sugestão de Leitura: Obesidade

Kompaniyets L, Freedman DS, Belay B, et al. Probability of 5% or Greater Weight Loss or BMI Reduction to Healthy Weight Among Adults With Overweight or Obesity. JAMA Netw Open. 2023;6(8):e2327358. Published 2023 Aug 1.

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