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Alimentação para Gestantes com Diabetes Gestacional

Durante a gravidez, ocorrem diversas mudanças metabólicas complexas, incluindo variações nos níveis hormonais e inflamatórios. Os níveis de estrogênio, progesterona, prolactina, cortisol, hormônio do crescimento e índices de estresse oxidativo de TNF-α, fetal e leptina aumentam significativamente. Por outro lado, a adiponectina diminui a partir do segundo trimestre, levando a uma maior resistência à insulina materna para fornecer nutrientes ao feto. 


Quando essa resistência à insulina é acentuada, pode ocorrer o diabetes mellitus gestacional, caracterizado pela intolerância à glicose detectada pela primeira vez durante a gravidez. Essa condição, considerada pré-diabética, resulta da incapacidade do pâncreas materno em lidar com a demanda metabólica aumentada durante a gestação. Além de ser um fator de risco para o desenvolvimento de diabetes tipo 2 no futuro, tanto para as mães quanto para as crianças nascidas dessas gestações, o diabetes gestacional desempenha um papel fundamental na incidência global desta doença.

 

Diabetes Gestacional e Suas Complicações


O diabetes gestacional resulta de um desequilíbrio em três aspectos do metabolismo: resistência à insulina, secreção de insulina e aumento da produção de glicose. Embora as mulheres com diabetes gestacional apresentem aumento na secreção de insulina, semelhante às mulheres com tolerância normal à glicose, esse aumento não é suficiente para compensar a resistência à insulina e manter os níveis normais de glicose no sangue. Este desequilíbrio, juntamente com a diminuição dos depósitos de células beta, leva ao desenvolvimento do diabetes mellitus. A gravidez atua como um teste de estresse, induzindo intolerância à glicose e revelando predisposição genética para diabetes tipo 2 devido a alterações hormonais. Geralmente, esse quadro se agrava na segunda metade da gestação, resultando em uma progressiva resistência à insulina até o parto.


Ainda, essa condição metabólica acarreta uma série de efeitos adversos tanto para a mãe quanto para o feto, incluindo macrossomia, lesões durante o parto, aumento nas taxas de cesariana, polidrâmnio, pré-eclâmpsia, distúrbios metabólicos neonatais e riscos aumentados de desenvolver diabetes mellitus tipo 2 após o parto. A hiperglicemia e a hiperinsulinemia resultam em estímulo excessivo das células beta pancreáticas fetais, levando a elevados níveis de insulina no sangue e podendo causar danos cerebrais irreversíveis devido à perda de glicose no sangue. 


Além disso, a suscetibilidade a infecções do trato urinário aumenta devido ao metabolismo anormal da glicose. Estudos indicam que o diabetes gestacional também está associado a um maior risco de hipertensão, dislipidemia, hipertensão arterial e doenças cardiovasculares a longo prazo. Filhos de mães com diabetes gestacional têm maior propensão à tolerância diminuída à glicose e à obesidade. A relação entre diabetes gestacional e inflamação é evidente, com a resistência à insulina sendo influenciada por hormônios placentários e tecido adiposo, além de citocinas pró-inflamatórias que podem danificar as células beta pancreáticas. Reduzir a inflamação pode ser uma estratégia eficaz na prevenção de complicações associadas ao diabetes gestacional.


Além disso, o índice de massa corporal (IMC) pré-gravidez tem um impacto significativo no desenvolvimento de diabetes gestacional. Mulheres com peso abaixo do normal apresentam uma menor probabilidade de desenvolver diabetes gestacional, enquanto aquelas com sobrepeso, obesidade moderada e obesidade grave têm uma probabilidade aumentada, com razões de chances variando de 1,77 a 7,21 em comparação com mulheres de IMC normal. Estudos indicam que uma maior ingestão calórica durante a gravidez pode aumentar o risco de diabetes gestacional e, mesmo em mulheres com diabetes gestacional, independentemente da obesidade, pode resultar em maior resistência à insulina e função prejudicada das células beta pancreáticas.


Intervenções Nutricionais


As intervenções nutricionais na dieta são fundamentais para o tratamento do diabetes gestacional, com a manipulação e limitação de calorias e nutrientes desempenhando um papel crucial na normalização. A dieta controlada em carboidratos é essencial para manter níveis adequados de açúcar e prevenir cetose. Intervenções dietéticas combinadas com mudanças no estilo de vida mostraram ser mais eficazes na redução da prevalência de diabetes gestacional, resultando em benefícios como menor peso ao nascer e redução de complicações neonatais e maternas.


Nesse sentido, alocação de calorias na dieta para mulheres grávidas com diabetes gestacional é ajustada com base no peso corporal ideal, variando de 30 quilocalorias por quilograma para índice de massa corporal (IMC) normal, 24 quilocalorias por quilograma para mulheres com sobrepeso e 12-15 quilocalorias por quilograma para aquelas com obesidade. 


Além disso, a prescrição calórica considera fatores como peso pré-gestacional, ganho de peso durante a gestação, índice de massa corporal e atividade física. As recomendações incluem uma distribuição adequada de macronutrientes, como 33-40% de carboidratos complexos, 35-40% de gordura e 20% de proteínas, visando melhorar a função da insulina e o metabolismo em pacientes diabéticos obesos. Embora haja poucos dados sobre a relação entre ingestão calórica e controle glicêmico em gestantes, é sugerido que a baixa dependência das recomendações dietéticas pode não ser suficiente para garantir o controle adequado da glicemia. Restringir a ingestão calórica sem orientação profissional pode ser prejudicial, pois pode afetar negativamente a dieta e o ganho de peso da mãe grávida, sendo necessário evitar a autocontenção na dieta e buscar orientação profissional para evitar complicações como a cetoacidose durante a gravidez.

 

No quesito suplemento, a vitamina D desempenha um papel crucial na regulação da sensibilidade à insulina, demonstrando diminuir a resistência à insulina em mulheres com diabetes gestacional, especialmente quando suplementada durante o primeiro e segundo trimestres da gravidez. O inositol, um componente do complexo B, pode reduzir a incidência de diabetes gestacional e diminuir os níveis de insulina e glicose em mulheres grávidas, enquanto o óleo de peixe, rico em ômega-3, demonstra melhorar o metabolismo lipídico e de glicose, além de reduzir a inflamação associada ao diabetes gestacional. Os probióticos e prebióticos mostraram potencial na modulação da microbiota intestinal, reduzindo a resistência à insulina, hiperglicemia e inflamação, sugerindo benefícios na prevenção e tratamento do diabetes gestacional.


Prática Clínica


A alimentação desempenha um papel crucial na gestão do diabetes gestacional, uma condição que não só representa um risco para a saúde materna e fetal durante a gravidez, mas também aumenta a probabilidade de desenvolvimento de diabetes tipo 2 no futuro, tanto para a mãe quanto para a criança. Intervenções nutricionais são a base do tratamento, com estratégias focadas na manipulação e limitação de calorias e nutrientes para normalizar os desequilíbrios metabólicos. 


A alocação adequada de calorias, ajustada de acordo com o peso corporal ideal e o IMC pré-gravidez, juntamente com uma distribuição balanceada de macronutrientes, é fundamental para melhorar a função da insulina e prevenir complicações. A suplementação de vitaminas e compostos como vitamina D, inositol, óleo de peixe, probióticos e prebióticos demonstrou benefícios na regulação do metabolismo e na redução da resistência à insulina e inflamação associadas ao diabetes gestacional. A orientação profissional é essencial para garantir uma abordagem nutricional adequada e segura, visando não apenas controlar a glicemia durante a gravidez, mas também promover a saúde materna e fetal a longo prazo.


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Referências Bibliográficas


Dolatkhah, N., Hajifaraji, M., & Shakouri, S. K. (2018). Nutrition Therapy in Managing Pregnant Women With Gestational Diabetes Mellitus: A Literature Review. Journal of family & reproductive health, 12(2), 57–72.


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