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Componentes Alimentares, Microbiota Intestinal e Enterótipo

A discrepância na composição da microbiota intestinal entre aqueles que seguem uma dieta vegana ou vegetariana em comparação com aqueles que consomem carne é amplamente discutida nos estudos. De acordo com pesquisas, dietas veganas e vegetarianas resultam em uma microbiota intestinal diferente daquela encontrada em indivíduos que comem carne. Além disso, os componentes alimentares das dietas vegana e vegetariana estão relacionados a mudanças na microbiota intestinal e enterótipo.

As alterações na composição da microbiota intestinal podem ser atribuídas a várias causas, como a ingestão de diferentes tipos de bactérias através dos alimentos, diferenças nos substratos consumidos, variações no tempo de trânsito do alimento pelo sistema gastrointestinal, pH, secreções do hospedeiro afetadas por padrões alimentares e regulação da expressão gênica tanto do hospedeiro quanto de sua microbiota intestinal.



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Efeitos da Dieta Vegetariana nos Enterótipos da Microbiota

Existem três enterotipos principais observados nos microbiomas humanos: Prevotella, Bacteroides, e Ruminococcus. Entre eles, o gênero Prevotella, que pertence ao filo Bacteroidetes, é conhecido por ser mais abundante em indivíduos que seguem uma dieta vegana. 

Prevotella

Um estudo que analisou o gênero Prevotella em crianças que consomem uma dieta rica em amido, fibra e proteína vegetal, mas pobre em gordura e proteína animal, em comparação com crianças que seguem uma dieta ocidental, que é rica em proteína animal, açúcar, amido e gordura, mas pobre em fibras. Concluiu-se que as crianças do primeiro grupo apresentaram quantidades maiores do gênero Prevotella em comparação ao segundo.

Um outro estudo analisou as dietas de 178 idosos que moravam na comunidade ou em lares de longa permanência. Descobriu-se que o grupo que vivia na comunidade seguia uma dieta com baixo a médio teor de gordura e alto teor de fibras, enquanto os residentes em lares de longa permanência consumiam uma dieta moderada a rica em gordura e pobre em fibras. Este estudo também encontrou que aqueles que seguiam uma dieta mais baseada em vegetais tinham maior probabilidade de possuir uma comunidade intestinal do tipo Prevotella.

O estudo comparando adultos indianos e chineses mostrou resultados semelhantes. Ou seja, conforme esperado, os indianos que consomem menos produtos de origem animal e mais alimentos vegetais apresentaram uma porcentagem significativamente maior de Prevotella em comparação com os chineses. Em outro estudo que comparou vegetarianos tailandeses com não-vegetarianos, descobriu-se que os vegetarianos tinham uma quantidade significativamente maior de Prevotella.

Destaca-se que dietas veganas e vegetarianas, que são ricas em alimentos à base de plantas, estão associadas a níveis elevados de Prevotella. Esses resultados fornecem evidências adicionais que sustentam a presença aumentada de Prevotella em indivíduos que consomem menos produtos de origem animal e mais alimentos de origem vegetal. Embora estudos em ratos tenham sugerido que o gênero Prevotella pode melhorar o metabolismo da glicose, aumentando o armazenamento de glicogênio, a atual falta de pesquisas adicionais significa que o Prevotella é apenas um gênero usado para descrever um ecossistema geral de bactérias intestinais humanas, especialmente em indivíduos com uma dieta baseada em vegetais.

Bacteroides

Bacteroides, que é outro gênero importante do filo Bacteroidetes, também parece ser afetado pela dieta, embora de maneira diferente da Prevotella. Bacteroides têm sido correlacionados positivamente com dietas ricas em proteína animal e gordura saturada a longo prazo. Isso provavelmente se deve à sua capacidade de tolerar a bile, que é comum nos ambientes intestinais daqueles que consomem produtos de origem animal.

Ao comparar a dieta ocidental com a de crianças que consomem uma dieta baseada em vegetais, constatou-se que Bacteroides é o gênero predominante na microbiota intestinal das crianças com dieta ocidental. Diante disso, é evidente que a presença elevada de Bacteroides é comum em humanos que seguem uma dieta ocidental, enquanto o contrário é observado em pessoas que consomem uma dieta rica em fibras de frutas e legumes.

Ruminococcus 

O Ruminococcus é o terceiro enterótipo predominante na microbiota intestinal e está relacionado ao consumo prolongado de frutas e vegetais. As espécies desse gênero possuem uma especialização na degradação de carboidratos complexos, como a celulose e o amido resistente, que são encontrados em alimentos de origem vegetal. Esses microrganismos são capazes de degradar as fibras alimentares, produzindo butirato, um composto que possui propriedades anti-inflamatórias. Além disso, estes micróbios degradam carboidratos complexos, eles também quebram os amidos resistentes encontrados em produtos de grãos refinados.

Componentes Alimentares de Plantas nos Enterótipos da Microbiota

Recentemente, foi descoberto que o consumo de nutrientes alimentares com baixa biodisponibilidade é importante para a saúde. A baixa biodisponibilidade de nutrientes é encontrada em partículas de alimentos maiores, paredes celulares vegetais intactas e alimentos sem tratamento térmico, o que significa que mais nutrientes chegam ao sistema gastrointestinal inferior, o que aumenta a entrega de nutrientes para a microbiota intestinal. Esse perfil contribui para sustentar o crescimento e o desempenho adequado da microbiota intestinal. 

Por outro lado, as dietas ocidentalizadas atuais têm uma quantidade maior de alimentos ultraprocessados e nutrientes sem células. Esses elementos são mais prontamente absorvidos no intestino delgado, privando o cólon de nutrientes cruciais, o que pode modificar a estrutura e o funcionamento do microbioma intestinal. Alimentos acelulares, por exemplo, açúcar, têm demonstrado inflamação em lactentes, adolescentes, mulheres em idade fértil e adultos mais velhos. Alimentos vegetais integrais têm efeitos protetores, favorecendo o crescimento de bactérias benéficas que degradam fibras no cólon.

Carboidratos

Diferentemente dos carboidratos que podem ser digeridos, os carboidratos não digeríveis, tais como o amido resistente e alguns açúcares, chegam ao intestino grosso, onde podem ser fermentados pela microbiota intestinal para gerar energia ou produzir subprodutos metabólicos. No entanto, tanto os carboidratos digeríveis quanto os não digeríveis têm a capacidade de afetar a composição da microbiota intestinal.

Um estudo recente realizado in vitro revelou o mecanismo preciso de ação de carboidratos, especialmente selecionados como fibras dietéticas, na microbiota intestinal. Este estudo demonstrou que certas fibras, como inulina, galacto-oligossacarídeos alfa-ligados, galacto-oligossacarídeos beta-ligados, xilo-oligossacarídeos de espigas de milho e cana-de-açúcar rica em fibras e beta-glucano de aveia, apresentam efeitos prebióticos distintos.

O beta-glucano estimulou o crescimento das bactérias Prevotella e Roseburia e aumentou a produção de propionato de ácidos graxos de cadeia curta (SCFA) simultaneamente. Já a inulina e todos os oligossacarídeos tiveram um efeito significativo na proliferação de bifidobactérias. O estudo também revelou que todos os açúcares naturais, especialmente aqueles que não são digeríveis, como a inulina e os oligossacarídeos, aumentam os níveis de SCFA.

Ademais, os carboidratos não digeríveis não somente agem como prebióticos, fomentando a multiplicação de microrganismos benéficos, como também reduzem a produção de citocinas pró-inflamatórias, além das concentrações de triglicerídeos, colesterol total e LDL no sangue. Consequentemente, os carboidratos não digeríveis podem oferecer efeitos protetores contra doenças cardiovasculares e distúrbios do sistema nervoso central.

Proteínas

A maioria dos estudos indica que o consumo de proteína está positivamente relacionado com a diversidade microbiana. Entretanto, proteínas de origem animal e vegetal têm efeitos diferentes na microbiota intestinal. Por exemplo, aqueles que consomem uma dieta rica em proteínas animais, principalmente de carne bovina, que também é rica em gordura, apresentaram menor quantidade de bactérias, como Rosebúria, Eubacterium rectale e Ruminococcus bromii, que metabolizam polissacarídeos de plantas. Por outro lado, o consumo de proteínas de origem vegetal tem sido associado a níveis mais elevados de ácidos graxos de cadeia curta no intestino, assim como foram associadas a uma menor taxa de mortalidade do que proteínas animais.

Gorduras 

Evidências atuais sugerem que tanto a quantidade quanto a qualidade da gordura consumida impactam significativamente a composição da microbiota intestinal. Uma dieta à base de vegetais é naturalmente pobre em gordura, o que é benéfico para as Bifidobactérias presentes na microbiota intestinal humana. As gorduras presentes em uma dieta vegana ou vegetariana são predominantemente monoinsaturadas e poliinsaturadas, o que aumenta a proporção de Bacteroidetes:Firmicutes. Em contraste, as gorduras saturadas, encontradas principalmente em fontes animais, aumentam as populações de Bilophilae e Faecalibacterium prausnitzii, e diminuem a população de Bifidobactéria. Alguns estudos indicam que essa mudança pode ativar a inflamação, induzindo citocinas pró-inflamatórias como IL-1, IL-6 e TNF-α, e resultar em distúrbios metabólicos.

Polifenóis

Os compostos naturais das plantas, conhecidos como polifenóis, presentes em alimentos vegetais, podem aumentar a quantidade de Bifidobacterium e Lactobacillus no organismo. Essas bactérias possuem propriedades anti patogênicas e anti-inflamatórias, além de oferecerem proteção cardiovascular. Dentre os alimentos que são ricos em polifenóis, estão as frutas, sementes, vegetais, chá, produtos derivados do cacau e vinho. Por exemplo, ao se utilizar extratos de polifenóis do chá, pode-se observar um aumento na quantidade de Bifidobacterium e Lactobacillus-Enterococcus Spp., o que resulta em uma maior produção de SCFA na microbiota humana em testes de laboratório.

Prática Clínica

Os dados discutidos aqui mostram uma importante relação entre  consumo alimentar e as modificações na microbiota intestinal. Isso evidencia a importância dos profissionais de saúde, em especial os nutricionistas, de estarem atentos às recomendações alimentares adequadas. Visto que diversos dados da literatura mostram que: refeições à base de plantas associam-se a resultados benéficos à saúde. Destaca-se que as atuais recomendações do guia alimentar para a população brasileira baseia-se em se ter uma maior prioridade para alimentos in natura, os quais incluem as refeições à base de plantas. 

Referências Bibliográficas

Artigo Dietas vegetarianas e veganas: Tomova A, Bukovsky I, Rembert E, Yonas W, Alwarith J, Barnard ND and Kahleova H (2019) The Effects of Vegetarian and Vegan Diets on Gut Microbiota. Front. Nutr. 6:47. doi: 10.3389/fnut.2019.00047

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