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Eixo Intestino-Cérebro em Transtornos Depressivos

Estudos demonstram alterações na composição da microbiota intestinal, conhecidas como disbiose intestinal, em pacientes com doenças crônicas, incluindo síndrome metabólica e transtornos depressivos. Quando a microbiota intestinal está comprometida, a função protetora da barreira intestinal é prejudicada, resultando em aumento da permeabilidade das paredes intestinais e na passagem de antígenos para a corrente sanguínea, causando inflamação. Isso pode levar à penetração de várias substâncias no SNC, afetando as funções fisiológicas do cérebro. Além disso, parece que a microbiota intestinal influencia o cérebro principalmente por meio do nervo vago, utilizando mecanismos humorais e neurais no eixo intestino-cérebro.

A disbiose intestinal desencadeia a ativação da resposta imune inata, resultando em inflamação crônica de baixo grau, caracterizada por níveis constantemente elevados de mediadores pró-inflamatórios e perda da regulação imunológica. Foi amplamente comprovado que a inflamação está intimamente relacionada a distúrbios neuropsiquiátricos. Portanto, a neuroinflamação está associada à ativação das células da microglia e à presença de células inflamatórias periféricas no tecido cerebral. É importante ressaltar que, em condições de homeostase, as células da microglia não produzem substâncias pró-inflamatórias e a neuroinflamação não ocorre.



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Microbiota e o Eixo Intestino-Cérebro

A influência da microbiota no estado mental é evidente por meio da comunicação bidirecional entre o intestino e o cérebro. A microbiota intestinal, que pode estabelecer relações simbióticas, comensais ou parasitárias com seu hospedeiro, tem a capacidade de ativar o sistema nervoso central (SNC) e o sistema imunológico. Essa microbiota é responsável pela produção de substâncias neuroativas, como a serotonina e o ácido gama-aminobutírico (GABA). Além disso, ela desempenha um papel importante na manutenção da homeostase, pois regula as respostas pró-inflamatórias e anti-inflamatórias.

A comunicação entre o intestino e o cérebro ocorre principalmente por meio do nervo vago, que é a via mais direta de transporte dessas substâncias e mediadores (com 80% das fibras sendo aferentes e 20% eferentes). As fibras aferentes do nervo vago não ultrapassam a camada epitelial das paredes intestinais e não estão em comunicação direta com a microbiota intestinal. As células enteroendócrinas desempenham um papel importante nessa comunicação, liberando serotonina diretamente para ativar os receptores 5-hidroxitriptamina-3 nas fibras aferentes do nervo vago, ou indiretamente por meio da liberação de hormônios intestinais.

É importante destacar que o trato gastrointestinal (TGI) abriga um grande número de células do sistema imunológico, que estão constantemente em contato com a microbiota intestinal. As células caliciformes epiteliais secretam muco protetor viscoso, formando uma camada que permite a interação entre a microbiota e o hospedeiro intestinal. O sistema imunológico intestinal mantém uma tolerância à microbiota comensal e uma resistência a patógenos. No entanto, o desequilíbrio entre o sistema imunológico do hospedeiro e a microbiota pode levar à inflamação e ao desenvolvimento de várias doenças.

Eixo Intestino-Cérebro de Pacientes Deprimidos

Foi observado uma alta incidência de comorbidade entre condições mentais como depressão e ansiedade, e doenças gastrointestinais, como a síndrome do intestino irritável (SII) ou doença inflamatória intestinal. De acordo com estudos na literatura, aproximadamente 60% dos pacientes com depressão e ansiedade relatam distúrbios nas funções gastrointestinais, como a síndrome do intestino irritável (SII).

A disbiose no ecossistema do trato gastrointestinal (TGI) resulta em um crescimento excessivo de microrganismos parasitários, tornando o ecossistema menos resistente a perturbações. Por exemplo, em pacientes com esquizofrenia, houve um aumento na abundância de espécies de leveduras como C. albicans e Saccharomyces cerevisiae, causando sintomas dispépticos, em comparação com indivíduos não afetados por condições psiquiátricas.

Além disso, sabe-se que níveis elevados de cortisol no plasma e fator liberador de corticotrofina no líquido cefalorraquidiano estão associados a alterações na atividade neural em pacientes deprimidos. A ativação repetida desses fatores resulta em um aumento nos níveis de catecolaminas, como norepinefrina e dopamina, que influenciam diversas funções fisiológicas, incluindo atenção, postura corporal, equilíbrio, controle cognitivo, emoções e ciclo sono-vigília. Além disso, a norepinefrina foi identificada como um fator que promove a proliferação de patógenos, como Escherichia coli, Yersinia enterocolitica e Pseudomonas aeruginosa.

Diversos estudos demonstram diferenças significativas na composição da microbiota intestinal de pacientes com depressão em comparação com indivíduos saudáveis. Essas diferenças foram observadas em diferentes níveis taxonômicos, incluindo filos, famílias e gêneros bacterianos. Sendo que, os níveis dos filos Bacteroidetes, especialmente a família Prevotellaceae e o gênero Prevotella, bem como os filos Actinobacteria e Proteobacteria, tendem a estar aumentados em pacientes com transtorno depressivo maior (TDM), enquanto a abundância de Firmicutes, família Lactobacillaceae, Bifidobacterium, Faecalibacterium e Ruminococcus é significativamente reduzida no TGI desses pacientes em comparação com indivíduos saudáveis. É importante ressaltar que estudos sugerem que o filo Firmicutes é particularmente relevante no contexto da depressão.

Microrganismos Probióticos

A Organização Mundial da Saúde definiu probióticos como microrganismos vivos que proporcionam benefícios à saúde quando consumidos em quantidades apropriadas. Nesse sentido, os produtos probióticos ajudam a manter um sistema gastrointestinal saudável, aliviando sintomas como dor abdominal, inchaço, flatulência, irregularidade intestinal, desconforto, Síndrome do Intestino Irritável (SII), inflamação e estresse oxidativo. Além disso, eles fortalecem o sistema imunológico e ajudam a reduzir níveis elevados de colesterol. Vale ressaltar que a eficácia dos probióticos orais depende da espécie e da cepa utilizada. Tanto os probióticos quanto os prebióticos são considerados seguros para todas as faixas etárias, incluindo durante a gravidez e a amamentação.

Probióticos na Depressão

Várias análises abrangentes examinaram o efeito da suplementação de probióticos no humor deprimido. Por exemplo, estudos realizados entre 2016 e 2023 revelaram que os probióticos, quando usados como monoterapia ou em combinação com a terapia antidepressiva convencional, reduziram a pontuação da escala de depressão em uma faixa de 0,24 a 1,62. No entanto, os resultados desses estudos ainda geram controvérsias, uma vez que outras análises indicaram que os probióticos não tiveram impacto nos sintomas de ansiedade e humor, tanto em pacientes diagnosticados com depressão quanto em indivíduos saudáveis.

Além disso, um estudo que englobou 1.349 pacientes não encontrou efeitos positivos da administração de probióticos no humor de populações saudáveis e deprimidas. Entretanto, observou-se uma redução de 0,684 na pontuação da escala de depressão em casos de depressão leve a moderada. Por outro lado, uma análise abrangente mostrou efeitos benéficos gerais da suplementação de probióticos na depressão. Os pesquisadores destacaram que o Lactobacillus foi o probiótico mais utilizado nos estudos, mas não teve efeito na depressão quando utilizado isoladamente. Além disso, foram encontradas diferenças significativas entre os estudos em que o Lactobacillus foi utilizado como monoterapia em comparação com aqueles em que foi complementado com outros probióticos e/ou prebióticos.

Por fim, é importante considerar que nem todas as cepas probióticas têm um impacto na saúde mental. Portanto, é necessário avaliar os probióticos com propriedades psicobióticas por meio de ensaios clínicos.

Prática Clínica

A investigação do elo entre a microbiota intestinal e o cérebro, conhecido como eixo microbiota-intestino-cérebro, tem ganhado destaque nas pesquisas recentes. Especificamente, tem havido um interesse crescente em explorar a relação entre a microbiota intestinal e transtornos psiquiátricos, como a depressão. A literatura atual fornece evidências que sustentam o uso de probióticos com propriedades psicobióticas como complemento no tratamento antidepressivo, sugerindo que desempenham um papel significativo no manejo e na terapia da saúde mental e emocional, especialmente no transtorno depressivo maior (TDM).

Referências Bibliográficas

Jach ME, Serefko A, Szopa A, Sajnaga E, Golczyk H, Santos LS, Borowicz-Reutt K, Sieniawska E. The Role of Probiotics and Their Metabolites in the Treatment of Depression. Molecules. 2023; 28(7):3213.

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