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Lipedema e Alterações Hormonais

O lipedema é uma condição que se caracteriza pelo acúmulo desproporcional de gordura nas pernas ou braços em relação ao tronco, devido a uma disfunção hormonal do tecido adiposo. Essa condição afeta principalmente mulheres, representando 90% dos casos, e pode causar dor, desconforto e ter um impacto significativo na qualidade de vida. Frequentemente confundido com obesidade ou celulite, o lipedema é uma condição de saúde distinta. Ao contrário da gordura comum, a gordura do lipedema não responde tão bem a medidas como exercícios físicos e dieta. Ainda há muitos profissionais que desconhecem a importância do tecido adiposo para a saúde feminina. 


Toda Gordura é Igual?


Não, toda gordura não é igual. Existem diferentes tipos de gordura no corpo humano, e elas desempenham funções variadas e podem responder de maneiras diferentes a estímulos externos, como dieta e exercício. A gordura do lipedema, por exemplo, parece ser mais resistente à perda de peso por meio de dieta, atividade física e mesmo cirurgia bariátrica. Além disso, ela possui características que se assemelham tanto à gordura do tecido conjuntivo subcutâneo (TCSC) quanto à gordura visceral. Sua expressão única de citocinas inflamatórias e marcadores moleculares de metabolômica, diferentes de qualquer outra célula de gordura do corpo humano, contribui para a compreensão de por que essa condição pode ser tão desafiadora de tratar e por que as abordagens convencionais de perda de peso podem não ser eficazes.


Gordura e Produção de Hormônios


A gordura não é apenas um reservatório passivo de energia; na verdade, as células adiposas produzem hormônios e outros compostos bioativos. As células adiposas brancas têm a capacidade de produzir e secretar uma variedade de hormônios e substâncias bioativas, tais como:


1. Leptina: A leptina é um hormônio importante na regulação do apetite e do metabolismo energético. Ela é secretada pelas células adiposas em proporção ao tamanho das reservas de gordura, e atua no cérebro para suprimir o apetite e aumentar o gasto energético.


2. Adiponectina: A adiponectina é um hormônio que aumenta a sensibilidade à insulina e tem efeitos anti-inflamatórios. Ela é secretada pelas células adiposas e ajuda a regular o metabolismo da glicose e dos ácidos graxos.


3. Resistina: A resistina é um hormônio que pode estar envolvido na regulação da resistência à insulina e na inflamação. Ela é secretada pelas células adiposas e pode desempenhar um papel no desenvolvimento de condições como a diabetes tipo 2 e a doença cardiovascular.


Além desses hormônios, as células adiposas também produzem uma variedade de outras substâncias bioativas, como citocinas, quimiocinas e fatores de crescimento, que desempenham papéis importantes na regulação do sistema imunológico, na inflamação e no metabolismo.


Diferenças de Excesso de Gordura entre Homens e Mulheres


A distribuição da gordura corporal difere entre homens e mulheres devido a diferenças biológicas e hormonais. Enquanto as mulheres tendem a ter uma distribuição de gordura mais subcutânea, comumente nas coxas, quadris e glúteos, os homens tendem a acumular mais gordura visceral na região abdominal. Além disso, os homens geralmente têm uma taxa metabólica basal mais alta devido à maior proporção de massa muscular, o que resulta em um maior gasto energético em repouso.


Embora haja uma maior prevalência de mulheres com obesidade severa, ambos os sexos enfrentam riscos significativos para a saúde associados à obesidade, como diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e certos tipos de câncer. Estudos indicam que a obesidade severa pode reduzir a expectativa de vida em até 8 anos para mulheres e 6 anos para homens, destacando a importância de abordagens eficazes para o gerenciamento do peso em ambos os sexos.


Estrogênio x Adiposidade


  • E2 protege contra adiposidade/obesidade:

  • Reduz as vias orexígenas (melanocortina e grelina)

  • Estimula as vias anorexígenas (colecistoquinina, leptina, BDNF)

  • Modula o consumo energia;

  • Aumenta o gasto energético (no sono e atividade fisica)

  • Regula vascularização do tecido adiposo;

  • Aumenta a expressão de BDNF hipotalâmico que regula o processo de transformação tecido adiposo branco em marrom;

Lipedema Não Está Isolado


O metabolismo dos esteroides humanos é notavelmente complexo, e os níveis séricos oferecem apenas uma perspectiva parcial desse processo. A carga total de estrogênios no organismo engloba não apenas a produção ovariana, mas também a produção extra-ovariana, a atividade do estrobólomo (conjunto de enzimas que metabolizam os esteroides) e a exposição a xenoestrogênios e fitoestrogênios, substâncias estruturalmente semelhantes aos estrogênios naturais, que podem afetar a função hormonal.


Os precursores dos esteroides, especialmente os do tipo C19, são convertidos nos tecidos periféricos por meio de um complexo enzimático. Esse processo de conversão pode ocorrer de maneira heterogênea em diferentes órgãos e tecidos, o que pode ter implicações significativas para o equilíbrio hormonal e o metabolismo dos esteroides


Prática Clínica


Diferente da gordura comum, a gordura do lipedema não responde efetivamente a exercícios e dieta, sendo uma condição desafiadora de tratar. O estrogênio, por exemplo, desempenha um papel crucial na proteção contra a adiposidade, regulando vias metabólicas e energéticas. Além disso, o lipedema não está isolado, sendo influenciado por uma rede complexa de metabolismo esteroidal, que envolve produção endógena, metabolismo periférico e exposição a substâncias disruptoras hormonais. Compreender esses aspectos é fundamental para nutricionistas na prática clínica, permitindo abordagens mais eficazes no tratamento do lipedema e suas complicações metabólicas.


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Referências Bibliográficas


Bonetti, G., Michelini, S., Donato, K., Dhuli, K., Medori, M. C., Micheletti, C., Marceddu, G., Herbst, K. L., Cristoni, S., Fulcheri, E., Buffelli, F., & Bertelli, M. (2023). Targeting Mast Cells: Sodium Cromoglycate as a Possible Treatment of Lipedema. La Clinica terapeutica, 174(Suppl 2(6)), 256–262. https://doi.org/10.7417/CT.2023.2496

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