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Micronutrientes na Doença Inflamatória Intestinal

A doença inflamatória intestinal (DII) é uma condição crônica e recorrente do trato gastrointestinal que engloba principalmente a doença de Crohn (DC) e a colite ulcerativa (UC). É importante ressaltar que sintomas clínicos comuns da DII são diarreia, dor abdominal, presença de sangue nas fezes e perda de peso. Atualmente, o tratamento dessa doença consiste principalmente no uso de medicamentos como ácido aminossalicílico, glicocorticoides, produtos biológicos e imunomoduladores para controlar crises ativas e manter a remissão a longo prazo. No entanto, durante esse processo, muitas vezes se negligencia o risco de desnutrição, especialmente a falta de micronutrientes.

A incidência de DII também está aumentando, tornando-se uma doença global. Apesar disso, sua causa ainda não é totalmente compreendida. É possível que o sistema imunológico de pessoas geneticamente predispostas seja excessivamente ativado devido a fatores ambientais e micro-organismos intestinais, resultando em disfunção da barreira intestinal, desequilíbrio da flora intestinal e inflamação intestinal descontrolada. Além disso, a DII pode ter um impacto significativo na vida física, psicológica e social dos pacientes. Alguns indivíduos sofrem de fadiga persistente, depressão ou ansiedade, e sua qualidade de vida é consideravelmente reduzida.

Deficiências de micronutrientes são comuns em pacientes com DII devido à dificuldade de absorção de nutrientes e ao fato de que esses pacientes tendem a restringir sua dieta para controlar os sintomas. Os micronutrientes incluem vitaminas e minerais, sendo que as vitaminas D, B, K, A, C e E estão particularmente relacionadas à DII.



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Vitamina D na Doença Inflamatória Intestinal

Além de seu papel tradicional na regulação do metabolismo do cálcio e fósforo e na manutenção da saúde óssea, a vitamina D também desempenha um importante papel como fator imunomodulador que afeta a homeostase intestinal. A atividade biológica da vitamina D é mediada pelo receptor de vitamina D (VDR), que está presente em células epiteliais intestinais normais e células do sistema imunológico, como macrófagos, células dendríticas, células B e células T. Portanto, a vitamina D tem a capacidade de regular a barreira intestinal, a imunidade da mucosa e também tem algum efeito na microbiota intestinal. Essa relação próxima entre o status de vitamina D e a DII é evidente.

Pacientes com DII frequentemente apresentam diarréia crônica, má absorção de nutrientes, falta de exposição solar e consumo reduzido de laticínios fortificados com vitamina D, o que aumenta a probabilidade de deficiência de vitamina D em comparação com indivíduos saudáveis. Um estudo com 965 pacientes com DII (61,9% com doença de Crohn e 38,1% com colite ulcerativa) descobriu que 29,9% apresentavam níveis baixos de vitamina D (25-OH-D sérico abaixo de 30 ng/ml).

Há evidências substanciais de que baixos níveis de vitamina D estão associados a resultados clínicos desfavoráveis na DII. Uma revisão sistemática que englobou 27 estudos com 8.316 pacientes com DII (3.115 com colite ulcerativa e 5.201 com doença de Crohn) demonstrou que níveis baixos de vitamina D estavam relacionados a um aumento na atividade da doença, inflamação da mucosa, baixa qualidade de vida e maior probabilidade de recidiva clínica no futuro. Por outro lado, vários ensaios clínicos foram realizados na população com DII para avaliar os efeitos da suplementação de vitamina D, e esses estudos mostraram efeitos positivos. Assim, a suplementação com doses elevadas de vitamina D pode reduzir a expressão de citocinas pró-inflamatórias.

Vitaminas do Complexo B na Doença Inflamatória Intestinal

Existem várias vitaminas do complexo B, como a tiamina (vitamina B1), riboflavina (vitamina B2), folato (vitamina B9) e vitamina B12, entre outras. Deficiências de folato e vitamina B12 podem levar à anemia megaloblástica, assim é importante monitorar os níveis dessas vitaminas em pacientes com DII, especialmente naqueles com DC, pois deficiências dessas vitaminas B são comuns nesses casos.

Um estudo retrospectivo e comparativo com 138 pacientes com DII constatou que 28,8% dos pacientes com DC e 8,6% dos pacientes com colite ulcerativa (CU) apresentavam deficiência de folato, enquanto 22,2% dos pacientes com DC e 7,5% dos pacientes com CU apresentavam deficiência de vitamina B12. É importante destacar que pacientes com DC que passaram por ressecção ileal estão em alto risco de deficiência de vitamina B12, uma vez que ela só pode ser absorvida através de receptores específicos no íleo terminal. Portanto, monitorar regularmente os níveis de folato e vitamina B12 em pacientes com DII e fornecer suplementação adequada quando necessário pode prevenir a anemia megaloblástica.

Além disso, a tiamina tem sido associada à fadiga em pacientes com DII. Um estudo controlado cruzado e randomizado demonstrou que altas doses de tiamina administradas oralmente podem melhorar a fadiga crônica em pacientes com DII em remissão. As doses utilizadas no estudo variaram de 600 a 1800 mg/dia, de acordo com o sexo, peso e nível de fadiga dos pacientes. Por outro lado, estudos em animais demonstraram os efeitos antiinflamatórios da riboflavina, como a redução da produção de citocinas pró-inflamatórias, como TNF-a e IL-6. No entanto, não está claro se a riboflavina alivia a inflamação diretamente, modulando o sistema imunológico, ou indiretamente, alterando a composição do microbioma intestinal.

Vitamina K na Doença Inflamatória Intestinal

Um estudo transversal realizado em pacientes pediátricos, envolvendo 63 crianças com DC e 48 com UC, revelou que a prevalência de deficiência de vitamina K foi de 54,0% em pacientes com DC e 43,7% em pacientes com UC. Destaca-se que a vitamina K desempenha um papel essencial na síntese de vários fatores de coagulação e também está relacionada ao metabolismo ósseo.

Os pesquisadores observaram que os níveis de vitamina K eram menores em pacientes com DC em comparação com indivíduos saudáveis, e a taxa de reabsorção óssea estava negativamente correlacionada com os níveis de vitamina K, sugerindo que a deficiência dessa vitamina pode ser uma das causas da osteoporose em pacientes com DC. No entanto, um estudo posterior não encontrou evidências de que a suplementação de vitamina K melhorasse os índices de saúde óssea em pacientes adultos com DC.

Embora alguns estudos tenham indicado uma relação negativa entre os níveis de vitamina K e a atividade clínica da doença de Crohn, ainda é necessário realizar mais pesquisas para compreender melhor a relação entre o status de vitamina K, a progressão da DII e a saúde óssea.

Vitamina A na Doença Inflamatória Intestinal

Dados da literatura mostraram que a vitamina A e o ácido retinóico desempenham papéis essenciais na regulação da imunidade da mucosa. Essas substâncias afetam diversos aspectos, como a integridade celular, produção de citocinas, ativação de células imunes inatas, apresentação de antígenos e tráfico de linfócitos para as superfícies mucosas. Por exemplo, estudos in vitro demonstraram que a vitamina A pode melhorar a função da barreira intestinal e reverter os danos induzidos por LPS (lipopolissacarídeo), aumentando a expressão de proteínas de junção apertada.

Adicionalmente, um estudo envolvendo 150 pacientes com colite ulcerativa (UC) foi conduzido, no qual os participantes foram aleatoriamente divididos em dois grupos: um grupo recebeu suplementação diária de 25.000 UI de vitamina A e o outro grupo recebeu placebo, durante dois meses. Os resultados indicaram que a taxa de remissão clínica e a taxa de cicatrização da mucosa foram significativamente maiores no grupo que recebeu suplementação de vitamina A em comparação com o grupo placebo.

Vitaminas C e E na Doença Inflamatória Intestinal

Apesar de a atenção dada ao status de vitamina C em pacientes com DII ser limitada, a ingestão insuficiente de vegetais e frutas nesses pacientes está relacionada a um maior risco de deficiência de vitamina C. Portanto, é necessário avaliar os níveis de vitamina C em pacientes com DII que consomem poucos vegetais e frutas. Além disso, estudos recentes indicam que a vitamina C pode influenciar a densidade óssea, e ter um status adequado dessa vitamina pode ter efeitos preventivos contra a osteoporose em pacientes com DII.

Adicionalmente, tanto a vitamina C quanto a vitamina E possuem propriedades antioxidantes, e já se constatou que a suplementação de vitamina E e vitamina C pode reduzir o estresse oxidativo em pacientes com DC.

Prática Clínica

O estado nutricional dos pacientes com DII pode influenciar o desenvolvimento da doença, no entanto, muitas vezes os profissionais de saúde negligenciam a avaliação do risco de desnutrição e o acompanhamento dos níveis de micronutrientes durante o tratamento. Estudos clínicos comprovaram os benefícios da suplementação de micronutrientes em pacientes com DII que apresentam deficiências específicas desses nutrientes. Portanto, é crucial fortalecer a abordagem nutricional no manejo de pacientes com DII, incluindo a adoção de uma dieta equilibrada, a realização regular de triagens e avaliações do estado nutricional, bem como a pronta suplementação quando deficiências de micronutrientes são identificadas.

Referências Bibliográficas

Assista o vídeo na Science Play: Microbiota, microbioma e saúde intestinal

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