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Nutrição na Gestação e na Lactação – Recomendações Para Guiar Profissionais de Saúde

Todo profissional de saúde que acompanha mulheres sabe o quanto o período de gestação e lactação é sensível, principalmente porque os cuidados necessários para esse momento não interferem apenas na saúde da paciente, mas também na do bebê.

As demandas fisiológicas do corpo se alteram ao longo dessa fase, o que acarreta em necessidades nutricionais diferentes das que apresentam as mulheres não-grávidas e não-lactantes. Por isso, as recomendações de alimentação se diferem.

Para nutricionistas e nutrólogos que buscam informações sobre a nutrição na gestação e na lactação, vale saber que grande parte das considerações encontradas em artigos científicos não-específicos são direcionadas a gravidezes sem complicações — portanto, ajustes precisam ser feitos em situações atípicas, como a de um caso de diabetes gestacional. 

Para apoiar você na sua evolução profissional, neste conteúdo, que é baseado em estudos científicos, nós reunimos::

  1. recomendações para nutrição de gestantes;

  2. recomendação para nutrição de lactantes;

  3. recomendações de prática clínica.



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Nutrição na gestação e na lactação

As recomendações apresentadas a seguir são voltadas para profissionais de saúde e são baseadas no artigo Nutrition Recommendations in Pregnancy and Lactation, de autoria das doutoras Michelle A. Kominiarek e Priya Rajan, publicado em 2017 na National Library of Medicine. 

Todas as orientações apresentadas aqui levam em consideração as adaptações fisiológicas que acontecem no corpo materno, bem como as necessidades de ingestão de macro e micronutrientes durante as fases da gravidez e da amamentação. 

Recomendações para nutrição na gravidez

Ainda é comum encontrar pessoas que acreditem que durante o período da gestação, a mulher deve “comer por dois”, mas essa informação não está correta e precisa ser desmistificada pelo profissional de saúde desde o primeiro atendimento. Na realidade, em termos quantitativos, a ingestão calórica deve aumentar, em media, 300kcal/dia durante a gravidez. 

Esse valor é derivado de uma estimativa das 80.000 kcal necessárias para sustentar uma gestação a termo, e é baseado nas necessidades geradas pelo aumento do metabolismo materno e, também, do crescimento fetal e placentário.

No primeiro trimestre, por exemplo, as necessidades energéticas da gestante são as mesmas das mulheres não-gestantes, mas aumentam no segundo, demandando 340 kcal a mais por dia, e no terceiro trimestre, demandando 452 kcal a mais por dia. Lembrando que essa é apenas uma média, que varia também de acordo com o IMC e o nível e gasto energético diário de cada mulher.

É essencial, no entanto, frisar que não são só os termos quantitativos que importam, muito pelo contrário, é preciso se atentar à qualidade nutricional da alimentação.

Consumo de macronutrientes na gestação

Os macronutrientes são aqueles responsáveis por fornecer energia e, por isso, compõem a maior parte da nossa dieta diária. São eles os carboidratos, proteínas e lipídios, e cada um tem seu papel fundamental no organismo.

Enquanto os carboidratos são a principal fonte de energia, as proteínas são fundamentais para a formação e a manutenção de tecidos do nosso corpo, como músculos e pele. Os lipídios, por sua vez, são importantes para a constituição das células e atuam, também, como reserva de energia e na absorção de determinadas vitaminas lipossolúveis.

A ingestão de proteína recomendada durante o cuidado da nutrição para a gestação, é de 60g/dia. Em outras palavras, esse aumento reflete uma mudança para 1,1g de proteína/kg/dia durante a gravidez de 0,8g de proteína/ kg/dia para quando a mulher não encontra-se grávida.

Os carboidratos devem representar 45-64% das calorias diárias e isso inclui aproximadamente 6-9 porções de grãos preferencialmente integrais diariamente. A ingestão total de gordura deve compreender 20-35% das calorias diárias, semelhante ao de mulheres não grávidas.

Consumo de micronutrientes na gestação

Os micronutrientes são aqueles que o nosso corpo demanda em menor quantidade, mas que não deixam de ser muito importantes para o funcionamento adequado do organismo. São eles, por exemplo, as vitaminas e os minerais, que participam de funções como a formação dos ossos e dentes e a regulação de processos metabólicos. 

As recomendações para a ingestão diária de micronutrientes para mulheres grávidas são determinadas pelas Recommended Dietary Allowances (RDA), que se referem aos níveis de ingestão de nutrientes essenciais que são julgados pelo Food and Nutrition Board do Institute of Medicine (IOM) como adequados para atender às necessidades de nutrientes.

Um multivitamínico específico para pré-natal, em doses diárias,  costuma ser recomendado antes da concepção e durante a gravidez. A diferença crítica dele em comparação com outros multivitamínicos é a dose de ácido fólico, necessária para apoiar processos essenciais do desenvolvimento fetal, como o crescimento e a replicação celular. 

As necessidades de ácido fólico aumentam durante a gravidez, por conta da intensidade de multiplicação de células relacionadas ao crescimento fetal. Por isso, a suplementação é recomendada, se possível, desde poucos meses antes da concepção, a fim de reduzir os riscos de defeitos na formação do tubo neural do bebê.

Outro micronutriente que deve ter seus níveis observados mais de perto durante a gestação é a vitamina D, já que sua deficiência é comum nesse período, especialmente em grupos como o de vegetarianas, de mulheres que vivem em regiões de clima frio e mulheres de pele mais escura. Em caso de deficiência, é importante repor a vitamina por meio de suplementação.

Em relação ao consumo de ômega 3, os dados disponíveis sugerem que os suplementos de óleo de peixe não conferem os mesmos benefícios à saúde que o consumo do peixe real. Os ácidos graxos ômega-3 são essenciais para o desenvolvimento do cérebro do feto e têm sido associados a uma visão melhorada em bebês prematuros, bem como a uma melhor saúde cardiovascular.

Nutrição para gestações múltiplas

No caso de gestações gemelares, a taxa metabólica materna é aproximadamente 10% maior do que em gravidezes de apenas um bebê. Não há diretrizes padronizadas para gestações múltiplas, mas estas foram inferidas a partir do cálculo para a gravidez única.

Uma recomendação para a composição de macronutrientes é 20% de proteína, 40% de gordura e 40% de carboidratos. Estima-se que uma dieta 40% mais calórica pode manter o estado nutricional da mulher durante a gravidez gemelar. 

As taxas de anemia por deficiência de ferro são 2-4 vezes mais altas em gêmeos. A anemia por deficiência de folato é 8 vezes mais comum em gêmeos do que em filhos únicos. Dessa forma, um suplemento diário de ácido fólico de 1 mg tem sido recomendado para gestações gemelares. Alguns especialistas também recomendam 1000 UI de vitamina D e 2000-2500mg/d de cálcio diariamente.

Nutrição para grávidas com obesidade

Mulheres com IMC pré-gestacional mais alto têm maior risco de ter resultados perinatais adversos. Isso inclui complicações maternas, como diabetes gestacional, hipertensão relacionada à gravidez e a necessidade de partos cesáreos, juntamente com efeitos fetais adversos, como defeitos de nascença, natimortos e crescimento fetal anormal. 

Como tal, a perda de peso antes da gravidez é fortemente recomendada para reduzir o risco dessas complicações. Com o objetivo de promover o ganho de peso gestacional ideal, deve-se atentar à combinação de aconselhamento dietético, monitoramento de peso e programas de exercícios. Além disso, um rastreamento precoce para intolerância à glicose também é recomendado.

Nutrição em gestação após cirurgia bariátrica

É comum que uma cirurgia bariátrica cause deficiências de micro e macronutrientes no organismo e, portanto, uma gravidez que ocorre após esse tipo de procedimento requer atenção especial ao estado nutricional da gestante.

As deficiências mais comuns a essas pacientes são:

  1. vitamina B12;

  2. ácido fólico;

  3. ferro.

Portanto, esses índices devem ser rigidamente acompanhados ao longo do pré-natal.

Nutrição para gestantes vegetarianas

Entre as principais recomendações de alimentação para gestantes vegetarianas estão as fontes alternativas de proteínas, que incluem feijão, ervilha, soja, nozes, leite e produtos derivados do ovo.

A deficiência de ferro em vegetarianas na gravidez é bastante comum, assim como de:

  1. cálcio;

  2. zinco;

  3. vitamina B12.

E, portanto, esses índices devem ser acompanhados com mais atenção ao longo dos exames pré-natais.

Recomendações para nutrição de lactantes

O leite materno é o alimento mais indicado para os primeiros meses do bebê. As recomendações da OMS são de que a amamentação seja exclusiva até os 6 meses e, depois, siga até os 2 anos — mesmo após a introdução alimentar. 

A lactação é considerada bem sucedida quando o bebê está ganhando a quantidade adequada de peso e se desenvolvendo dentro do esperado, o que deve ser acompanhado por um pediatra.

Essa produção do leite, é claro, também demanda do corpo feminino um gasto energético maior do que o da mulher não-lactante. 

Mulheres que amamentam requerem aproximadamente 500 kcal adicionais/dia além do recomendado para mulheres não-grávidas e não-lactantes. A estimativa é derivada do volume médio de leite materno produzido por dia (média 780 ml, intervalo 450-1200 ml) e do conteúdo energético do leite (67 kcal/100 mL).

A dose diária recomendada de proteína durante a lactação é um adicional de 25 g/dia. As necessidades de muitos micronutrientes aumentam em comparação com a gravidez, com exceção das vitaminas D e K, cálcio, flúor, magnésio e fósforo. É recomendado, também, que as mulheres continuem a tomar uma vitamina pré-natal diariamente enquanto estão amamentando.

É importante ressaltar, ainda, que fatores como estresse, ansiedade e tabagismo, além da alimentação, podem impactar negativamente na produção de leite. A porcentagem de gordura corporal e o IMC da mulher, no entanto, não influenciam.

Nutrição para lactantes vegetarianas

Assim como no caso das gestantes vegetarianas, as lactantes com essa restrição alimentar também exigem um pouco mais de atenção. Um suplemento de vitamina B12 costuma ser recomendado pelo médico, assim como o aumento no consumo de cálcio. 

Prática clínica

– Gasto de energia na gravidez: A ingestão calórica deve aumentar em aproximadamente 300 kcal/dia durante a gravidez. No entanto, deve ser individualizada com base na idade, IMC e nível de atividade da mulher.

– Macronutrientes na gravidez: 1,1g de proteína/kg/dia; 45-64% de carboidratos; 20-35% de gordura. 

– Micronutrientes na gravidez: Deve-se seguir os valores de RDA modificado para mulheres grávidas. Suplementação de ferro, vitamina D e outros nutrientes caso haja deficiência ou para suprir a ingestão das quantidades recomendadas.  Suplementação de ácido fólico (400-800μg por dia) antes da concepção. 

– Gestações múltiplas: dieta 40% mais calórica com 20% de proteína, 40% de gordura e 40% de carboidratos. Suplemento diário de ácido fólico de 1 mg, e possivelmente, 1000 UI de vitamina D e 2000-2500 mg/d de cálcio.

– Obesidade: Devido aos maiores riscos de resultados perinatais adversos, deve-se atentar a combinação do aconselhamento dietético, monitoramento de peso e programas de exercícios, além de um rastreamento precoce da intolerância à glicose.

-Gestação pós cirurgia bariátrica: gestantes pós bariátrica podem apresentar deficiências nutricionais resultantes do procedimento cirúrgico, principalmente vitamina B12, ácido fólico e ferro.

– Vegetarianos: utilizar fontes alternativas de proteína como feijão, ervilha, soja, nozes, manteiga de amendoim, leite e ovo. Atenção às possíveis deficiências nutricionais (ferro, cálcio, zinco e vitamina B12).

– Lactação: 500 kcal adicionais/dia, com 25 g/dia de proteína a mais de mulheres não grávidas. É recomendado que as mulheres continuem a tomar uma vitamina pré-natal diariamente enquanto estão amamentando.

– Lactantes vegetarianas: recomenda-se a suplementação de vitamina B 12 (2,6 μg/d) e cálcio (1200-1500 mg/dia).

Orientações finais para profissionais de saúde sobre nutrição para grávidas e lactantes

Além de considerar as recomendações expostas neste artigo, é fundamental aos profissionais de saúde entenderem cada paciente como única e, assim, avaliarem cada uma particularmente, para elaborar um plano alimentar personalizado e adequado às necessidades individuais.

Para complementar seus conhecimentos sobre o tema deste texto, leia também nosso conteúdo sobre recomendações nutricionais na gravidez e na lactação, voltadas para a prática clínica, e veja orientações que apoiam na criação de uma dieta equilibrada para suas pacientes.

Referências bibliográficas

Kominiarek MA, Rajan P. Nutrition Recommendations in Pregnancy and Lactation. Med Clin North Am. 2016;100(6):1199-1215. doi:10.1016/j.mcna.2016.06.004

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