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O Impacto do Treino de Força no Envelhecimento

O processo de envelhecimento está levando a uma transição demográfica, caracterizada pela redução da natalidade e pelo aumento da expectativa de vida, resultando em uma proporção maior de idosos longevos, com mais de 80 anos. Enquanto no Brasil consideramos idosos aqueles com mais de 60 anos, em países desenvolvidos esse limiar é geralmente estabelecido em 65 anos. Devido a essa mudança demográfica, o Brasil não teve tempo suficiente para se preparar adequadamente para o processo de envelhecimento, destacando a importância do papel do profissional de educação física nesse contexto. Como resultado, tem havido um investimento crescente em profissionais de educação física dentro dos hospitais.


Tipos de Envelhecimento


Quando pensamos em envelhecimento, existem dois tipos: o patológico e o bem-sucedido. Nesse cenário, o que determina o envelhecimento bem-sucedido é a capacidade do indivíduo de realizar atividades diárias sem depender de outra pessoa, como tomar banho e cuidar das finanças. 


Dessa forma, o modo como esse indivíduo envelhece é influenciado por questões individuais, como o nível de atividade física, qualidade do sono e manejo do estresse, não apenas na vida idosa, mas em todas as fases da vida. Nossa saúde é impactada pelo que fazemos hoje, incluindo doenças ao longo da vida, diagnósticos prévios, uso de antibióticos e cirurgias. 


Além disso, o fator genético também influencia, mas hoje em dia temos a epigenética. O acesso à tecnologia é importante, como o Hospital Einstein, por exemplo, o qual trabalha com bons profissionais e tecnologia que fazem a diferença na área da saúde. Tudo isso afeta o tipo de idoso que o paciente será. 


Processo de Envelhecimento


Deve-se entender que o processo de envelhecimento pode ocorrer de dois modos, termos usados na geriatria. O primeiro deles é a senescência, que é um processo natural de envelhecimento, a qual se caracteriza pela somatória de alterações morfológicas e funcionais atribuídas aos efeitos dos anos sobre o organismo. Nosso organismo passa por alterações que são esperadas durante o processo de envelhecimento, são reações que nosso organismo terá. Por exemplo, é esperado o surgimento de mais cabelos brancos, pois é uma alteração esperada.


O outro modo, a senilidade, causa danos à saúde associados ao tempo, porém, provocados por doenças ou maus hábitos de vida. Por exemplo, a hipertensão é uma doença que pode ser favorecida pelo envelhecimento, mas não é causada por ele. Está relacionada aos hábitos de vida do idoso.


Se analisarmos a linha da vida, observamos um pico de saúde, seguido por um processo de declínio funcional. Quando entramos na senilidade, esse declínio se torna mais acentuado, com perda significativa de função, afetando as atividades de vida diária. É importante distinguir o que é considerado normal ou não nesse processo. Todas as células envelhecem, mas em velocidades diferentes.


Mudanças Geradas Pelo Envelhecimento


Dentição e cavidade oral: A partir dos 40 anos, começa a ocorrer uma diminuição na quantidade de saliva e no arcabouço ósseo/dentário. Por exemplo, na dentição, quando pensamos na cavidade oral, observamos uma perda de tecido que dificulta a mastigação de carnes, levando a uma tendência de diminuição na ingestão de proteína animal durante o envelhecimento.


Olfato e paladar: Após os 60 anos, a mucosa da cavidade oral tende a ficar mais fina, afetando a percepção do olfato e do paladar.


Voz: Após os 65 anos, é comum observar que a voz começa a ficar mais baixa ou rouca.


Visão: A partir dos 40 anos, ocorre uma diminuição na capacidade de contração da pupila, afetando a visão.


Ossos: Aos 35 anos, inicia-se naturalmente a perda óssea, que se torna mais acentuada, especialmente em mulheres após a menopausa. Chega-se a perder até duas polegadas de altura aos 80 anos.


Músculos: A partir dos 30 anos, começa a ocorrer uma maior perda muscular em comparação com a sua síntese. Aos 40 anos, é comum perder de 0,5% a 2% da quantidade total de músculo por ano. A massa óssea e o tecido muscular são os dois tecidos mais afetados, principalmente nas mulheres devido às alterações hormonais.


Cérebro: A partir dos 20 anos, observa-se uma diminuição no número de neurônios, com uma perda de aproximadamente 10.000 neurônios por ano após os 40 anos.


Trato intestinal: A partir dos 35 anos, já começam a ocorrer mudanças na flora intestinal.


Pulmões: A partir dos 20 anos, há uma diminuição na capacidade de expansão pulmonar.


Coração: A partir dos 40 anos, o batimento cardíaco tende a se tornar menos eficaz.


Função renal: A partir dos 50 anos, há uma diminuição no número de glomérulos, resultando em uma redução de 50% na capacidade de filtração glomerular aos 75 anos.


Mulheres, até entrarem na menopausa, têm um fator de proteção hormonal contra doenças cardiometabólicas, como diabetes. Portanto, é indiscutível que a prática de atividade física seja orientada como parte de um processo educacional estruturado, o que está relacionado com a redução da mortalidade.


Condições Comuns nos Idosos


  • Comprometimento Cognitivo (Alzheimer, demência vascular);

  • Instabilidade postural (risco de queda);

  • Incontinência urinária;

  • Síndrome da fragilidade;

  • Síndromes derivadas de erros de diagnóstico;

  • Imobilismo;

  • Incapacidade comunicativa;

  • Insuficiência familiar.


Síndrome da Fragilidade


Derivada de três fatores - incapacidade, comorbidade e fragilidade - a síndrome da fragilidade é um fenômeno complexo. Este processo está associado à sarcopenia, que envolve a perda de massa muscular devido a disfunções imunológicas e a uma desregulação neuroendócrina. Na literatura, descreve-se um ciclo que se inicia com o processo de senescência ou desnutrição crônica, principalmente devido à ingestão incorreta de proteínas ou a doenças. 


Consequentemente, o idoso tende a se movimentar cada vez menos, resultando em redução da velocidade de marcha, perda de massa muscular e força, além de adaptações na marcha. Como resultado, o gasto energético basal diminui, afetando a taxa metabólica basal. Esse conjunto de fatores pode levar à dependência funcional, perpetuando o ciclo vicioso conhecido como "anorexia do envelhecimento".


Fenótipo de Fragilidade


  1. Perda de peso não intencional: superior a 4,5 kg ou mais de 5% do peso corporal no último ano.

  2. Diminuição da força de preensão palmar, medida com dinamômetro e ajustada conforme gênero e índice de massa corporal (IMC).

  3. Redução da velocidade de marcha em segundos.

  4. Exaustão: queixas como "Sinto que realizo todas as minhas atividades com muito esforço" ou "Não consigo continuar minhas atividades".

  5. Baixo nível de atividade física: medido pelo dispêndio semanal de energia em kcal, com base no autorrelato das atividades e exercícios físicos específicos realizados, e ajustado de acordo com o gênero.


Na pré-fragilidade e fragilidade, o treinamento de força é essencial. Nesse cenário, sem força, não há melhora no VO2. Se o indivíduo é frágil e apresenta critérios como perda de peso sem motivos intencionais, diminuição da força de preensão palmar, redução da velocidade de marcha, exaustão referida e baixo nível de atividade física, ele precisa ainda mais de exercícios de fortalecimento.


No Brasil, cerca de 40% da população é classificada como frágil. A fragilidade está associada a um processo inflamatório, resultando em desregulação do sistema imunológico e favorecendo a produção de substâncias como a PCR, que está relacionada a doenças como diabetes. Em outras palavras, os idosos frágeis têm um aumento do risco de desenvolver comorbidades. Além disso, há mudanças nas características do tecido muscular durante o processo de senescência, com perda de células do tipo 2. Isso está relacionado à maior probabilidade de ficar acamado, ser hospitalizado, ter doenças causadoras de incapacidade funcional, demência e ter 75 anos ou mais.


Prioridade: Treinamento de Força para Idosos


Na pré-fragilidade, as diretrizes americanas para idosos e da OMS priorizam o exercício aeróbico. No entanto, no caso da fragilidade, torna-se mandatório realizar o treino de força. Nesse contexto, diminuímos o aeróbico e nos concentramos no fortalecimento muscular, visando melhorar a capacidade cardioprotetora. As principais síndromes estão relacionadas à perda de massa muscular, tornando o treinamento de força indispensável.


Demandas Geriátricas


A prevalência de idosos no Brasil mostra que as doenças do aparelho circulatório são as principais causas de morte, seguidas pelas doenças respiratórias. Analisando as demandas geriátricas, observamos a hipertensão arterial, a aterosclerose, a síndrome metabólica, o diabetes mellitus tipo 2 e o câncer, todas relacionadas a um processo principal: a resistência à insulina. A resistência favorece o aumento da glicemia, o desenvolvimento de câncer e o surgimento de outras doenças.


Para entender essa relação, podemos comparar o processo a uma entrega de pizza: a glicose é a pizza, a insulina é o porteiro que a recebe. Na resistência à insulina, substâncias inflamatórias "cortam" o interfone, resultando no aumento da glicemia e, a longo prazo, no desenvolvimento de diabetes. Além disso, esse processo favorece o aumento do colesterol LDL, conhecido como "colesterol ruim".


No caso do câncer, muitos tipos estão relacionados à obesidade, que por sua vez está ligada à resistência à insulina. Nesse contexto, a insulina é um fator que contribui para o aumento desse processo. Assim, é crucial intervir nesse ciclo. Por exemplo, muitos pacientes com câncer sofrem de fadiga, e o treino de força pode ser uma opção de tratamento para esse sintoma.


Prática Clínica


Pensar na funcionalidade significa atribuir função ao aluno, proporcionar-lhe autonomia e independência para realizar atividades diárias, como tomar banho. Devemos planejar o exercício de acordo com as atividades que ele precisa realizar em sua rotina.


"Jamais considere seus estudos como uma obrigação, mas como uma oportunidade invejável para aprender a conhecer a Beleza libertadora do intelecto para seu próprio prazer pessoal e para proveito da comunidade à qual seu futuro trabalho pertencer." - Albert Einstein


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Referências Bibliográficas


MANINI, Todd M.; EVERHART, James E.; PATEL, Kushang V.; SCHOELLER, Dale A.; COLBERT, Lisa H.; VISSER, Marjolein; TYLAVSKY, Frances; BAUER, Douglas C.; GOODPASTER, Bret H.; HARRIS, Tamara B.. Daily Activity Energy Expenditure and Mortality Among Older Adults. Jama, [S.L.], v. 296, n. 2, p. 171, 12 jul. 2006. American Medical Association (AMA).

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