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Pré-Diabetes, Regulação Lipídica e Vitamina D

Nos últimos anos a prevalência de diabetes mellitus aumentou de forma significativa em todo o mundo. Pesquisas estimam que em 2011, havia aproximadamente 366 milhões de pacientes com diabetes e que o número deve chegar a 552 milhões até 2030. Por outra perspectiva, a deficiência de vitamina D também é um problema de saúde crescente em muitas partes do mundo, afetando mais de 50% da população em geral. Diante disso, dados da literatura mostram uma possível associação entre os níveis de vitamina D na regulação dos níveis lipídicos em indivíduos pré-diabéticos. 

O pré-diabetes precede o diabetes, uma doença que está associada a um alto risco de doenças cardiovasculares, mortalidade e altos custos econômicos relacionados ao tratamento e incapacidade laboral associada. Com isso, uma intervenção durante o estado pré-diabético é importante para prevenir a progressão do diabetes. O pré-diabetes é definido como um estado com um nível de glicose no sangue além do valor normal, mas que não atinge os critérios diagnósticos para diabetes, os quais incluem: a glicose em jejum alterada, definida como glicose plasmática em jejum de 6,1– 6,9 mmol/L ou 5,6–6,9 mmol/L; tolerância diminuída à glicose, definida pelo teste oral de tolerância à glicose com o valor de glicose plasmática na faixa de 7,8–11,0 mmol /L; ou níveis de hemoglobina glicada entre 39 e 47 mmol/mol. 

Vale destacar que a dislipidemia é uma característica importante tanto do pré-diabetes quanto do diabetes e pode agravar as complicações diabéticas. Diante disso, a literatura mostra que pessoas com níveis mais baixos de  25- hidroxi vitamina D (25(OH)D) tendem a ter níveis mais altos de glicose no sangue, resistência à insulina e um maior risco de diabetes mellitus tipo 2 (DM2), assim como a suplementação de vitamina D mostrou melhorar a dislipidemia em indivíduos com DM2. 



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Vitamina D e Marcadores Lipídicos

Muitos estudos mostraram que a baixa concentração sérica de 25(OH)D foi associada ao estado lipídico adverso. Com isso algumas pesquisas indicaram que a suplementação de vitamina D poderia melhorar os níveis séricos de colesterol total, lipoproteínas de baixa densidade, lipoproteínas de alta densidade e triglicerídeos em pacientes com DM2, bem como e em indivíduos com síndrome metabólica. 

Em contrapartida, a metanálise discutida aqui apresentou resultados de que a suplementação de vitamina D pode diminuir os níveis circulantes de triglicerídeos em indivíduos com pré-diabetes, especialmente em certas situações, mas não conseguiu confirmar os efeitos nos níveis séricos de colesterol total, lipoproteínas de baixa densidade, lipoproteínas de alta densidade. 

Ação Fisiológica da Vitamina D e Níveis de Triglicerídeos

Os efeitos no organismo da suplementação da vitamina D sobre os níveis de triglicerídeos pode ser mediado por vários fatores, pois o  dentre eles estão: 

  1. Aumento dos níveis de cálcio;

  2. Supressão da secreção do hormônio da paratireoide (PTH);

  3. Inibição da lipólise;

  4. Supressão da inflamação;

  5. Supressão da atividade do sistema renina-angiotensina-aldosterona;

  6. Interação com glicocorticóides e hormônios sexuais;

  7. Regulação positiva de adiponectina;

  8. Melhora na resistência à insulina e nos níveis de insulina;

  9. Inibição direta da expressão da proteína de ligação do elemento regulador de esterol do fator nuclear 1c (SREBP1c) envolvida na síntese hepática de triglicerídeos;

  10. Aumento da depuração de TG pela regulação positiva da lipoproteína lipase, esfingomielinases neutras, PPARγ e proteína 2 de ligação a adipócitos;

  11. Regulação positiva da oxidação mitocondrial. 

Interpretando a Literatura

Como citado anteriormente, a suplementação de vitamina D especialmente em certas situações apresentou resultados mais positivos, uma delas foi no grupo de intervenção que incluía indivíduos obesos. Em outras palavras, os estudos que incluíram indivíduos obesos com pré-diabetes, não apenas indivíduos com peso normal e com sobrepeso, observaram um efeito mais significativo nos níveis de triglicérides quando comparados com estudos que não incluíram  indivíduos obesos. 

Esses pontos podem ser explicados pelo fato de que em alguns dos estudos foram incluídos além dos indivíduos obesos, indivíduos do sexo masculino. Assim, na análise de subgrupo o efeito da suplementação no triglicerídeos foi mais marcante nos estudos de sexo misto do que nos estudos que incluíram apenas mulheres, em que o efeito não foi significativo. Ademais, o tempo de intervenção dos estudos também pode influenciar os resultados obtidos. Melhor falando, os estudos que incluíram indivíduos obesos o tratamento foi superior a um ano, enquanto a duração do tratamento no estudo que excluiu indivíduos obesos foi de 8 semanas. 

Por outro lado, em uma associação mais direta, a redução dos triglicerídeos em indivíduos obesos pode ter sido mais significativa pelo fato de que estes possuem níveis de triglicerídeos muito mais altos em comparação com indivíduos não obesos. Logo, o efeito pode ser mais observável, especialmente durante tratamento prolongado. Outrossim, outra explicação pode ser devido ao fato de que indivíduos obesos são mais propensos à deficiência de vitamina D, enquanto melhorias na resistência à insulina e características metabólicas relacionadas podem ser observadas após sua correção. Apesar das hipóteses levantadas, estas não foram confirmadas nos estudos. 

Em relação às doses de suplementação de vitamina D os resultados mostram que a dose relativamente baixa (2.857 UI/dia) e dose relativamente alta (8.571 UI/dia), forneceu reduções significativamente maiores dos triglicerídeos, mas tal efeito não foi observado no grupo relativamente média. No entanto, o grupo de dose relativamente média incluiu apenas um estudo e o mesmo foi de curta duração.

Resumidamente, as intervenções que duram apenas alguns meses podem ser um período de tempo muito curto para avaliar os benefícios da vitamina D. Logo, as intervenções envolvendo a suplementação por um período inferior a 1 ano não são suficientes para se observar os efeitos da suplementação. Nesse sentido, as maiores reduções foram observadas em pacientes com intervenções de longa duração, mas não no subgrupo de curta duração.

Prática Clínica

Os dados apresentados mostram que a suplementação de vitamina D pode afetar beneficamente os níveis de triglicerídeos em indivíduos com pré-diabetes. Sendo que o tratamento com longas durações e doses que corrigem a deficiência/insuficiência vitamínica, podem ter um efeito benéfico sobre o perfil lipídico. Além disso, a literatura destaca a importância de uma avaliação regular do status de vitamina D entre pacientes com pré-diabetes. 

Referências Bibliográficas

Sugestão de leitura: Vitamina D

Assista o vídeo na Science Play com  Fábio dos Santos:  Vitamina D: muito além de uma vitamina

Artigo Vitamina D e níveis lipídicos: Yang Y, Yan S, Yao N, et al. Effects of vitamin D supplementation on the regulation of blood lipid levels in prediabetic subjects: A meta-analysis. Frontiers in Nutrition. 2023;10. doi:https://doi.org/10.3389/fnut.2023.983515

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