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Resistência à Insulina: Explorando a Relação entre Alimentação e Saúde Metabólica

A famosa citação de Hipócrates, "Deixe o alimento ser o seu remédio, e deixe o remédio ser o seu alimento", continua válida hoje, destacando a importância da dieta na prevenção e tratamento de condições metabólicas como a resistência à insulina (RI) e o dismetabolismo da glicose. A vida moderna, com seu estilo de vida sedentário, hábitos alimentares irregulares e estresse crônico, contribui para o desenvolvimento da resistência à insulina, que por sua vez está associada a diversos fatores como obesidade abdominal, histórico familiar de diabetes tipo 2 e estilo de vida sedentário. A obesidade, um fenótipo heterogêneo, está ligada à resistência à insulina, especialmente quando acompanhada de aumento da gordura visceral. 


Além disso, a resistência à insulina está relacionada a alterações no metabolismo lipídico e inflamação. Estratégias como perda de peso, exercício regular e uma dieta rica em fibras, grãos integrais e laticínios integrais são fundamentais na prevenção e tratamento da resistência à insulina, enquanto alimentos com alto índice glicêmico, gorduras saturadas e consumo excessivo de álcool podem aumentar o risco.


Abordagens para Controlar a Hiperglicemia Pós-Prandial


Durante a ingestão de refeições, uma série de mecanismos coordenados opera para regular as flutuações pós-prandiais de glicose na corrente sanguínea. A insulina desempenha um papel crucial nesse processo, influenciando os tecidos sensíveis à insulina, como fígado, músculo esquelético e tecido adiposo. Após uma refeição, ocorre um rápido aumento na secreção de insulina e uma diminuição paralela na de glucagon, promovendo a incorporação de glicose no glicogênio hepático. O fígado atua como um "mecanismo evolutivo conservado", reduzindo a carga secretora nas células β pancreáticas para evitar hiperinsulinemia excessiva.


A sensibilidade à insulina também desempenha um papel fundamental na regulação da glicose pós-prandial. Se os tecidos sensíveis à insulina forem altamente sensíveis à insulina, pode ser alcançado um manejo eficaz da entrada de glicose na corrente sanguínea após as refeições sem um aumento pronunciado nos níveis plasmáticos de insulina. Intervenções no estilo de vida visando melhorar a sensibilidade à insulina são cruciais para evitar hiperglicemia e hiperinsulinemia.


Além da insulina, a glicose pode regular seu próprio metabolismo nos tecidos independentemente da insulina. O trato gastrointestinal desempenha um papel significativo na regulação da hiperglicemia durante a ingestão de alimentos, através de mecanismos de feedback coordenados pelo sistema nervoso central. A composição da refeição e a ingestão de alimentos com baixo índice glicêmico podem reduzir as respostas pós-prandiais de glicose e insulina, melhorando assim a sensibilidade à insulina.


Estratégias na hiporglicemia 


A resposta glicêmica após as refeições é influenciada por diversos fatores, incluindo a quantidade e o tipo de carboidratos consumidos, o tipo de amido presente nos alimentos, a sua preparação, a presença de outros macronutrientes como gordura, proteína e fibra, e as funções orgânicas fisiológicas, como o esvaziamento gástrico e a taxa de absorção intestinal. Estratégias dietéticas para mitigar a hiperglicemia pós-prandial, hiperinsulinemia e resistência à insulina incluem o consumo de alimentos que reduzem as flutuações da glicose, reconhecidas por induzirem estresse oxidativo e danos às células beta pancreáticas. O ritmo alimentar, como comer rapidamente, pode influenciar as excursões glicêmicas. Além disso, alimentos que induzem uma menor carga glicêmica e retardam o esvaziamento gástrico são estratégias importantes para reduzir a necessidade de insulina, as flutuações de glicose pós-prandial e os desejos por alimentos, muitas vezes contendo alto teor de fibras solúveis, baixo teor de carboidratos facilmente absorvíveis e rico em proteínas.


Os efeitos positivos das dietas com baixo teor de carboidratos na resistência à insulina e em fatores de risco cardiometabólico são destacados, independentemente da perda de peso. Estudos relatam que uma dieta pobre em carboidratos pode levar à normalização da HbA1c em pessoas com pré-diabetes, e meta-análises demonstram que essas dietas são eficazes na redução do peso corporal, triglicerídeos e aumento do HDL, embora levantem preocupações sobre o potencial aumento do risco de doenças cardiovasculares a longo prazo. No entanto, restrições severas de carboidratos devem ser monitoradas cuidadosamente, pois podem induzir resistência hepática à insulina. 


Embora a remissão do diabetes tipo 2 seja alcançável com dietas com baixo teor de carboidratos, sua sustentabilidade e impacto a longo prazo na saúde cardiovascular e qualidade de vida são temas de debate. Em contrapartida, não há uma dieta ou composição de macronutrientes claramente superior para perda de peso em pessoas com diabetes tipo 2, destacando a importância de um plano alimentar individualizado e sustentável que leve em consideração as preferências do paciente, objetivos metabólicos e estilo de vida. A perda de peso continua sendo crucial para melhorar a hiperglicemia pós-prandial e a resistência à insulina, mas a escolha da abordagem dietética deve ser adaptada a cada indivíduo, considerando sua capacidade de adesão e manutenção do plano alimentar.


Impacto dos Nutrientes e da Ordem das Refeições na Glicemia 


Alimentos fermentados, ricos em microrganismos benéficos e ácidos orgânicos, como o ácido láctico, têm sido associados a uma diminuição das respostas glicêmicas pós-prandiais. A fermentação retarda o esvaziamento gástrico, reduzindo a taxa de digestão do amido e, consequentemente, as flutuações da glicose no sangue. Além disso, o consumo de vinagre, um produto fermentado rico em ácido acético, tem sido associado a efeitos benéficos na glicemia, tanto em indivíduos saudáveis quanto em pessoas com pré-diabetes ou diabetes tipo 2. Estudos mostraram que o ácido acético presente no vinagre retarda o esvaziamento gástrico e inibe enzimas responsáveis pela digestão de carboidratos complexos, resultando em menor glicose pós-prandial.


Outros alimentos fermentados, como iogurte, produtos lácteos cultivados e alimentos tradicionais fermentados como kimchi e chucrute, também demonstraram reduzir as respostas glicêmicas pós-prandiais. Embora os mecanismos precisos ainda não estejam completamente elucidados, os ácidos orgânicos e os microrganismos vivos presentes nesses alimentos parecem desempenhar um papel na regulação da glicose. Apesar da necessidade de mais pesquisas para entender completamente esses efeitos, o consumo de alimentos fermentados é uma estratégia promissora para melhorar a hiperglicemia pós-prandial e a resistência à insulina, sugerindo seu potencial como parte de uma dieta voltada para o controle do diabetes.


Além disso notou-se em alguns estudos a ordem das refeições pode influenciar significativamente as respostas glicêmicas pós-prandiais e a sensibilidade à insulina. Ingerir alimentos densos em água, como sopas e vegetais, seguidos por laticínios leves, proteínas magras e grãos integrais pode reduzir as excursões de glicose e insulina após as refeições. Evitar alimentos refinados, fritos e açucarados também é recomendado. Essa estratégia alimentar pode melhorar a saciedade, reduzir a ingestão calórica e promover a sensibilidade à insulina, oferecendo uma abordagem eficaz e acessível para o tratamento da resistência à insulina.


Duas revisões sistemáticas e meta-análises de 33 ensaios clínicos randomizados (ECRs) revelaram que a ingestão de frutanos do tipo inulina pode reduzir as concentrações de glicose no sangue, colesterol total e triglicerídeos em pessoas com diabetes tipo 2, embora os mecanismos subjacentes ainda não estejam completamente esclarecidos. Outra análise de 36 ECRs indicou que a suplementação com polifenóis, presentes em alimentos como chá, chocolate, uvas e azeite, resultou em redução significativa na hemoglobina glicada (HbA1c) em pacientes com diabetes tipo 2, possivelmente devido à inibição de enzimas digestivas, aumento da secreção de insulina e redução da produção hepática de glicose.

Ademais, estudos sobre alimentos específicos, como sementes de chia, pistache, amêndoas e nozes, demonstraram efeitos positivos no controle glicêmico e na resistência à insulina, possivelmente devido aos antioxidantes, fibras, gorduras saudáveis ​​e aminoácidos presentes nesses alimentos. A proteína do soro do leite também mostrou melhorar os parâmetros metabólicos em pacientes com síndrome metabólica, provavelmente através da ativação de hormônios incretinas e inibição de enzimas relacionadas ao metabolismo da glicose. Em resumo, o consumo desses alimentos pode oferecer benefícios adicionais ao controle da glicemia pós-prandial e à resistência à insulina em indivíduos com diabetes, embora sejam necessários mais estudos para entender completamente seus mecanismos de ação e determinar doses precisas e efeitos a longo prazo.


Prática Clínica


Implementar uma abordagem abrangente e individualizada para o manejo da resistência à insulina e hiperglicemia pós-prandial. Isso inclui educar os pacientes sobre a importância da dieta, incentivando uma alimentação rica em fibras, grãos integrais e alimentos fermentados, ao mesmo tempo em que se limita o consumo de alimentos com alto índice glicêmico. 


Além disso, destacar a importância do exercício regular e da perda de peso, monitorar regularmente a glicose no sangue e outros parâmetros metabólicos, e considerar a incorporação de suplementos ou alimentos funcionais que demonstraram benefícios no controle glicêmico e na sensibilidade à insulina. Fornecer recursos educacionais contínuos também é essencial para ajudar os pacientes a entender os benefícios de um estilo de vida saudável na gestão dessas condições e melhorar sua qualidade de vida geral.


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Sugestão de leitura: Insulina




Referências Bibliográficas


Papakonstantinou E, Oikonomou C, Nychas G, Dimitriadis GD. Effects of Diet, Lifestyle, Chrononutrition and Alternative Dietary Interventions on Postprandial Glycemia and Insulin Resistance. Nutrients. 2022 Feb 16;14(4):823. doi: 10.3390/nu14040823. PMID: 35215472; PMCID: PMC8878449.

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