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Suplementação de Cafeína: O que a ISSN trás de novo?

A cafeína atua ligando-se aos receptores de adenosina, bloqueando assim a ligação da adenosina ao seu receptor. Esse bloqueio afeta indiretamente a liberação de neurotransmissores como noradrenalina, dopamina, acetilcolina, serotonina, glutamato e ácido gama-aminobutírico. Além disso, a cafeína inibe a fosfodiesterase, levando ao acúmulo de AMPc, o que estimula a liberação de hormônios e neurotransmissores como dopamina e catecolaminas (epinefrina e norepinefrina). Isso pode resultar no aumento da lipólise do tecido adiposo e subsequente oxidação de ácidos graxos. Ainda neste contexto, estudos agudos também demonstraram que a cafeína afeta o metabolismo lipídico e a oxidação. No entanto, apesar da divulgação extensiva da posição sobre a cafeína pela International Society of Sports Nutrition (ISSN), algumas questões, mal-entendidos e conceitos errôneos sobre essa substância ainda persistem.


A cafeína desidrata você em repouso? E em exercício?


Nos últimos anos, houve um interesse crescente em compreender o efeito da cafeína no corpo humano, especialmente no que diz respeito à sua influência sobre a diurese. Estudos anteriores sugeriram que uma dose de cafeína ≥300 mg poderia induzir diurese aguda. No entanto, pesquisas recentes mostraram que doses moderadas de cafeína (3 mg/kg ou ~250-300 mg), comuns em bebedores habituais nos Estados Unidos, não parecem aumentar o volume de urina. Por outro lado, doses excessivas e impraticáveis de cafeína (6 mg/kg ou ≥500 mg) podem facilitar a diurese aguda.


Além disso, evidências sugerem que os receptores de adenosina A1 podem desempenhar um papel nos efeitos diuréticos e natriuréticos da cafeína, bloqueando esses receptores nos rins. Resultados de pesquisas também indicam que a ingestão de cafeína não impacta negativamente a retenção de líquidos após o exercício, embora doses excessivas possam facilitar a diurese aguda.


É importante ressaltar que, mesmo que a maioria dos estudos não tenha encontrado diferenças significativas entre cafeína e placebo para esses parâmetros que avaliam o volume urinário, houve um aumento na temperatura corporal com o consumo de cafeína. Ademais, a resposta à cafeína pode variar significativamente entre indivíduos, influenciada por fatores genéticos e sexo biológico. O que destaca a importância de considerar fatores individuais ao interpretar os efeitos dessa substância na hidratação e no desempenho físico.


Dessa forma, a ingestão moderada de cafeína pode ter um efeito mínimo ou inexistente sobre a diurese, sendo que fatores como taxa de suor, estratégia de hidratação e genética exercem maior influência sobre o estado de hidratação. Tornando-se importante garantir uma ingestão adequada de líquidos para evitar efeitos negativos no equilíbrio hídrico.

 

Peso Corporal, Massa Gorda e Desempenho Muscular


Uma revisão sistemática e meta-análise investigaram os efeitos da ingestão aguda de cafeína (variando de 2 a 7 mg/kg de massa corporal) na oxidação de gordura durante o exercício. Os resultados revelaram que a cafeína aumentou significativamente a taxa de oxidação de gordura, reduziu a taxa de troca respiratória, sendo observado um efeito dose-resposta da cafeína na oxidação de gordura, com doses ≥3 mg/kg resultando em aumentos significativos.


Além disso, a capacidade da cafeína de aumentar a oxidação de gordura foi mais pronunciada em indivíduos sedentários ou não treinados do que em atletas treinados e recreativos. Ademais, muitos desses estudos mostraram resultados favoráveis, mas usaram doses de cafeína consideravelmente mais altas do que muitos outros estudos que não encontraram resultados favoráveis ​​ou outros compostos termogênicos como éfedra, galato de epigalocatequina (chá verde), citrus aurantium (laranja amarga) e etc., em conjunto com a cafeína, o que provavelmente cooperou com o efeito da cafeína, tornando difícil a interpretação dos resultados da cafeína como um único ingrediente.


No mais, a relação entre o consumo de cafeína e a perda de peso é complexa, com alguns estudos indicando benefícios significativos, enquanto outros não encontram resultados claros. Neste cenário, observa-se que a dose de cafeína e as características individuais dos participantes parecem desempenhar um papel importante nessa relação.


Por fim, estudos demonstraram resultados diversos em relação à influência da cafeína na força do corpo, com doses variadas. Enquanto alguns estudos não encontraram benefícios com doses menores, outros observaram melhorias na força superior do corpo com doses mais altas. Sugere-se que doses ideais possam variar conforme o nível de treinamento e as características individuais.


Portanto, conclui-se que os efeitos ergogênicos da cafeína dependem da dose, das diferenças individuais e do tipo de atividade, não apresentando um viés claro entre a força da parte superior e inferior do corpo.


Mitos, Riscos e Considerações para Depressão, Mortalidade, Resposta Individual, Gênero e Gravidez


Estudos sugerem que a cafeína, ao influenciar a liberação de neurotransmissores como dopamina e serotonina, pode afetar o humor e o bem-estar. Enquanto alguns indicam uma possível relação inversa entre consumo moderado de cafeína e risco de depressão, definido como até 400 mg/dia, o excesso de cafeína pode ter efeitos negativos na saúde mental, incluindo agravamento de sintomas de ansiedade, comumente associados à depressão. Em síntese, a relação entre cafeína e depressão é altamente individualizada.


Sendo assim, o consumo moderado pode oferecer alívio temporário de sintomas, mas o consumo excessivo pode agravar a ansiedade e perturbar o sono, resultando em impactos negativos na saúde mental.


Além disso, a cafeína encontrada em muitas bebidas e alimentos, possui recomendações de consumo estabelecidas pela FDA, limitando a ingestão diária a 400 mg para evitar efeitos tóxicos. No entanto, embora a dose letal mediana (LD50) de cafeína em ratos seja alta, relatando 367 mg/kg, casos de morte por overdose têm sido registrados, especialmente em produtos contendo cafeína concentrada. Por outro lado, relatos de mortes relacionadas à cafeína destacam os perigos do consumo excessivo, com algumas vítimas consumindo doses de até 22 gramas. No entanto, para a maioria das pessoas, a cafeína em bebidas como café e chá geralmente não apresenta risco de overdose, sendo considerada parte de uma dieta saudável pela FDA, desde que consumida com moderação.


Diante disso, mesmo em moderação a cafeína é um suplemento comum para exercícios, mas sua eficácia varia entre indivíduos, dependendo de fatores como genética, dose e tipo de exercício. Isso porque a cafeína é metabolizada principalmente pelo gene CYP1A2, que influencia na velocidade de metabolização. Variantes genéticas desse gene podem levar a diferentes respostas à cafeína, embora os resultados sejam mistos. Outro gene, ADORA2A, também pode influenciar a resposta à cafeína, embora pesquisas limitadas tenham sido feitas sobre esse aspecto.


A literatura sobre diferenças sexuais em resposta ao consumo de cafeína é diversificada. Alguns estudos destacam diferenças entre homens e mulheres em relação aos efeitos da cafeína, como maior eficácia em homens em determinados aspectos. No entanto, outros estudos não encontram diferenças significativas entre os sexos em termos de desempenho cognitivo, resistência muscular e outros aspectos. Desse mode, presume-se que possíveis fatores que podem influenciar essas diferenças incluem níveis hormonais, atividade enzimática e variações fisiológicas. Entretanto, apesar das variações, a cafeína ainda é considerada uma ajuda ergogênica eficaz para ambos os sexos, com estudos sugerindo benefícios semelhantes em atletas masculinos e femininos.


Nesse sentido, se tratando de mulheres e grávidas, a cafeína é lipofílica o suficiente para ser transferida livremente através de todas as membranas biológicas, incluindo a barreira hemato-placentária, enquanto nem o feto nem a placenta possuem as enzimas para o seu metabolismo. Mesmo doses abaixo de 300 mg podem aumentar o risco de aborto espontâneo e problemas no desenvolvimento fetal. A regulação epigenética e a variação na resposta individual à cafeína destacam a complexidade desses efeitos. Recomenda-se limitar a ingestão de cafeína durante a gravidez, conforme diretrizes de saúde pública.


Os Efeitos da Cafeína: Desempenho, Dependência e Estratégias de Consumo


O consumo regular de cafeína pode influenciar a resposta do desempenho à sua suplementação aguda, principalmente devido à regulação dos receptores de adenosina. Entretanto, estudos em humanos mostram que o aumento no número desses receptores foi observado apenas em estudos com ratos, não em humanos. No mais, estudos recentes indicam que o consumo habitual de cafeína não parece ter um impacto negativo no desempenho após a ingestão aguda, embora a dose necessária para afetar o desempenho possa variar. A falta de consistência nos resultados pode ser atribuída às variações nos níveis de consumo de cafeína utilizados para classificar os indivíduos como baixos ou altos consumidores.


A questão da dependência da cafeína é complexa, e embora o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders reconheça a abstinência de cafeína como um diagnóstico oficial, o transtorno por uso de cafeína ainda não foi classificado como um transtorno por uso de substâncias. Os critérios de diagnóstico propostos para o transtorno por uso de cafeína são mais conservadores do que para outros transtornos por uso de substâncias, devido à falta de clareza sobre sua extensão clínica.


Por fim, a sugestão de adiar a ingestão de cafeína pela manhã para evitar impactos no cortisol e no ciclo sono-vigília não parece ser fundamentada cientificamente. Embora seja uma prática comum, não há evidências sólidas que a sustentem. O ritmo circadiano do cortisol e os níveis de adenosina ao acordar não parecem ser afetados pela cafeína, sugerindo que adiar sua ingestão nas primeiras horas do dia não é justificado.


Evidências Científicas e Implicações para a Saúde


A relação entre o consumo de cafeína e a saúde óssea é complexa e ainda não completamente compreendida. Enquanto algumas pesquisas sugerem uma associação inversa entre o consumo de café e o risco de osteoporose, outras evidências apontam possíveis efeitos adversos da cafeína na densidade mineral óssea (DMO), especialmente em mulheres com alto consumo. Mecanicamente, esses efeitos podem estar relacionados à influência da cafeína nos receptores de adenosina, atividade dos osteoblastos e metabolismo do cálcio. No entanto, a falta de ensaios controlados randomizados dificulta conclusões definitivas sobre os efeitos da cafeína na saúde óssea, destacando a necessidade de mais pesquisas clínicas.


Quanto à saúde cardiovascular, a literatura científica também oferece evidências divergentes. Enquanto alguns estudos sugerem benefícios do consumo moderado de cafeína, como melhorias na função cognitiva e endotelial, outros apontam potenciais riscos, como aumento transitório da frequência cardíaca e pressão arterial após a ingestão aguda. Pesquisas longitudinais também indicam uma correlação entre alto consumo de cafeína e resultados cardiovasculares adversos, como aumento da rigidez arterial e risco aumentado de fibrilação atrial. Sendo assim, a interpretação desses dados é complexa devido à variabilidade entre os estudos.


Atualmente, as diretrizes consideram seguro um consumo diário de até 400 mg de cafeína para a maioria dos adultos, mas a avaliação de riscos personalizada é crucial, especialmente para populações vulneráveis. Por fim, a ingestão de cafeína pode ser um fator relevante a considerar em indivíduos que praticam exercícios físicos, já que muitos podem exceder essa dose quando a cafeína é utilizada como auxiliar ergogênico.

Prática Clínica


É fundamental que os profissionais estejam cientes das complexidades envolvidas na suplementação de cafeína ao fornecer orientações aos pacientes. Uma avaliação criteriosa dos potenciais benefícios e riscos, levando em consideração a variabilidade entre os estudos e a influência de fatores genéticos no metabolismo da cafeína, é essencial para garantir uma abordagem segura e eficaz. Mais pesquisas são necessárias para esclarecer completamente os efeitos da cafeína, ajudando a informar diretrizes mais precisas para seu uso adequado. Em última análise, a prática clínica deve ser guiada por uma compreensão atualizada e holística dos impactos da cafeína na saúde, adaptando-se às necessidades individuais de cada paciente para promover uma abordagem terapêutica personalizada.


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Sugestão de leitura: Ca​​feína




Referências Bibliográficas

Jose Antonio, Daniel E. Newmire, Jeffrey R. Stout, Brandi Antonio, Maureen Gibbons, Lonnie M. Lowery, Joseph Harper, Darryn Willoughby, Cassandra Evans, Dawn Anderson, Erica Goldstein, Jose Rojas, Matías Monsalves-Álvarez, Scott C. Forbes, Jose Gomez Lopez, Tim Ziegenfuss, Blake D. Moulding, Darren Candow, Michael Sagner & Shawn M. Arent (2024) Common questions and misconceptions about caffeine supplementation: what does the scientific evidence really show?, Journal of the International Society of Sports Nutrition, 21:1, DOI: 10.1080/15502783.2024.2323919

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