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Uso de Antibióticos e Microbiota Intestinal

O intestino abriga uma comunidade microbiana complexa, organizada em uma rede de interdependências metabólicas. Embora a maioria dos tratamentos com antibióticos não apresente efeitos adversos imediatos, eles podem causar alterações significativas na microbiota intestinal, com implicações para a saúde a curto e longo prazo.

 

Impactos dos Antibióticos na Saúde

 

Os antibióticos estão ligados à exposição precoce e ao aumento do risco de asma infantil, alergias e doenças das vias respiratórias. Além disso, contribuem para o desenvolvimento de outras condições comuns, como infecções gastrointestinais, ganho de peso e obesidade, doença inflamatória intestinal (DII), câncer colorretal e resistência bacteriana aos antibióticos.

 

Composição da Microbiota Intestinal

 

Um dos métodos mais comuns para identificar e avaliar a diversidade de procariontes (Bacteria e Archaea) é o sequenciamento do gene 16S rRNA. Dos 55 filos do domínio Bacteria, apenas de sete a nove são encontrados no intestino humano, sendo a maioria (90%) pertencente aos filos Bacteroidetes e Firmicutes. Outros filos identificados incluem Proteobacteria, Actinobacteria, Fusobacteria e Verrucomicrobia, enquanto poucas espécies de Archaea são detectadas.

 

A maioria das cepas que compõem a microbiota intestinal são residentes de longa data, embora sua abundância relativa possa variar ao longo do tempo em um determinado indivíduo. Fatores como dieta, consumo de medicamentos, estilo de vida, comorbidades e tempo de trânsito colônico impactam a composição microbiana das amostras fecais de um hospedeiro.

 

Funções da Microbiota

 

A microbiota intestinal desempenha uma variedade de funções metabólicas cruciais para a saúde. Entre essas funções, está a síntese de vitaminas essenciais como a vitamina K e B12, fundamentais para diversos processos fisiológicos. Além disso, os microrganismos intestinais facilitam a absorção de minerais como cálcio, manganês e ferro, contribuindo para a manutenção da saúde óssea e metabólica. Eles também desempenham um papel na quebra de polifenóis e no metabolismo dos ácidos biliares, influenciando indiretamente o sistema imunológico e o metabolismo lipídico.

 

Em termos defensivos, a microbiota intestinal atua como uma barreira contra patógenos invasores. Os microrganismos competem com os patógenos por nutrientes e locais de fixação, dificultando sua colonização e proliferação no intestino. Além disso, eles secretam compostos antimicrobianos, como bacteriocinas e lactato, que ajudam a eliminar ou reduzir a carga de patógenos. A microbiota também desempenha um papel na simulação da produção secretora de IgA, um importante anticorpo presente nas mucosas, reforçando ainda mais a defesa contra invasores.

 

Por fim, a microbiota intestinal exerce funções tróficas que vão além do intestino. Ela regula o desenvolvimento do epitélio intestinal, promovendo a formação de criptas e angiogênese, essenciais para a integridade estrutural do trato gastrointestinal. Além disso, influencia o desenvolvimento e a função do sistema imunológico, estimulando respostas imunes apropriadas. A microbiota também estimula o peristaltismo intestinal, contribuindo para a saúde digestiva, e possui efeitos em órgãos distantes, como o sistema nervoso central e o fígado, por meio de complexas interações microbiota-hospedeiro. Essas funções tróficas demonstram a importância da microbiota intestinal para a saúde global do organismo.

 

Perturbação da Microbiota Intestinal

 

A disbiose refere-se a uma perturbação persistente da microbiota intestinal, causada por fatores ambientais e relacionados ao hospedeiro, que ultrapassam a capacidade de resistência e resiliência do ecossistema microbiano. Essas mudanças na composição da microbiota estão associadas a uma variedade de doenças, incluindo diarreia recorrente por C. difficile, doenças inflamatórias intestinais (DII), câncer colorretal, esteato-hepatite não alcoólica, diabetes tipo 2, obesidade e doença hepática crônica avançada.

 

Efeitos dos Antibióticos na Microbiota Intestinal

 

Diversidade Reduzida

 

O tratamento com antibióticos diminui a diversidade global de espécies na microbiota intestinal, levando à perda de táxons essenciais, alterações metabólicas e maior suscetibilidade à colonização, além de promover o desenvolvimento de resistência bacteriana. Em crianças, a restauração da diversidade microbiana após o tratamento com antibióticos geralmente leva cerca de um mês. Em adultos, a administração de antibióticos como meropenem, gentamicina e vancomicina resulta em um aumento na prevalência de Enterobacteriaceae e outros patobiontes, ao mesmo tempo que causa uma redução em Bifidobacterium e espécies produtoras de butirato.

 

Metaboloma Alterado

 

A administração de antibióticos, como vancomicina-imipenem, resulta em níveis aumentados de arabinitol e açúcares nas fezes, o que está associado a uma maior suscetibilidade à infecção por C. difficile (CDI) e à redução das bactérias Lachnospiraceae e Ruminococcaceae. As alterações no metaboloma intestinal podem ou não estar correlacionadas com mudanças no microbioma. Em pacientes com síndrome metabólica, a vancomicina reduz os ácidos biliares secundários fecais e afeta a sensibilidade periférica à insulina.

 

Resistência a Antibióticos

 

A resistência aos antibióticos refere-se à capacidade de uma espécie bacteriana sobreviver a concentrações de antibióticos que normalmente inibiriam ou matariam outras bactérias da mesma espécie. Entre 2000 e 2015, o consumo global de antibióticos aumentou em 65%, sendo a amoxicilina o antibiótico mais utilizado. Estima-se que até 2050, o número de mortes devido à resistência aos antibióticos possa atingir até 10 milhões globalmente.

 

Prática Clínica

 

Para prevenir a Diarreia Associada a Antibióticos (DAA), as diretrizes recomendam o uso de L. rhamnosus GG e S. boulardii em crianças, enquanto em adultos, tanto Lactobacillus rhamnosus GG quanto Saccharomyces boulardii são indicados. Em casos de Infecção por C. difficile, os tratamentos comumente utilizados incluem metronidazol (500mg via oral três vezes ao dia por 10 dias para casos leves e moderados) e vancomicina (125 mg quatro vezes ao dia por 10 dias para casos graves).

 

O uso de probióticos pode auxiliar no tratamento dessa infecção, contribuindo para evitar possíveis complicações a longo prazo. Além disso, na Infecção por Helicobacter pylori, a inclusão de probióticos contendo Lactobacillus e Bifidobacterium na terapia de erradicação do H. pylori demonstrou melhorar a eficácia e a segurança do tratamento.

 

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Referências Bibliográficas

 

RAMIREZ, Jaime; GUARNER, Francisco; FERNANDEZ, Luis Bustos; MARUY, Aldo; SDEPANIAN, Vera Lucia; COHEN, Henry.Antibiotics as Major Disruptors of Gut Microbiota. Frontiers In Cellular And Infection Microbiology, [S.L.], v. 10, p. 1, 24 nov. 2020. Frontiers Media SA.

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