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Vitamina D no Tratamento da Depressão e Ansiedade

O transtorno depressivo maior (TDM) e os transtornos de ansiedade são altamente prevalentes em todo o mundo no campo dos transtornos psiquiátricos. Os sintomas de depressão e ansiedade muitas vezes se sobrepõem nos pacientes, e é comum encontrar casos de transtornos de ansiedade e TDM coexistentes em ambientes de saúde, o que representa um grande desafio para a saúde mental. No entanto, o tratamento desses transtornos continua sendo um desafio, pois os tratamentos atuais têm suas limitações. Por isso, faz-se necessário o desenvolvimento de novas substâncias que possuam propriedades antidepressivas e ansiolíticas. Nesse contexto, a vitamina D tem sido objeto de investigação como uma estratégia promissora no manejo desses transtornos.



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Atuação da Vitamina D no Metabolismo Humano

A vitamina D pode ser adquirida por meio da alimentação, na forma de vitamina D2 ou ergocalciferol encontrada em plantas, fungos e leveduras, e a vitamina D3 ou colecalciferol encontrada em fontes vegetais e animais, sendo especialmente abundante em peixes de água fria. No entanto, é importante ressaltar que as fontes dietéticas contribuem apenas com uma pequena quantidade da vitamina D disponível para ser metabolizada pelo organismo.

Outra forma muito comum se dá a partir da exposição à luz solar, no entanto a produção sofre influências de fatores como cor da pele, uso de protetor solar, localização geográfica, estação do ano e idade. Além disso, a contribuição da dieta e dos suplementos para os níveis sanguíneos de 25(OH)D não segue um padrão linear e também é influenciada por diferentes fatores, como os níveis iniciais de vitamina D, o índice de massa corporal, a porcentagem de gordura corporal, a idade e a ingestão de cálcio.

Ademais, tem-se que níveis elevados de 25(OH)D no sangue (acima de 150 ng/mL), estão associados à hipercalcemia, uma condição potencialmente perigosa. Visto que pode causar sintomas como náuseas, vômitos, fraqueza, aumento da produção de urina, acúmulo de cálcio nos rins (nefrocalcinose) e até mesmo insuficiência renal. Sendo assim, a quantidade máxima de vitamina D que pode ser ingerida diariamente sem representar risco de efeitos adversos não está claramente estabelecida e depende de vários fatores. No entanto, a suplementação diária de 5.000 UI de vitamina D é geralmente considerada como um limite seguro para uso a curto prazo. Para uso prolongado, a dose máxima de suplementação de vitamina D é de 2.000 UI/dia. Doses superiores a 50.000 UI/dia aumentam significativamente os níveis séricos acima de 150 ng/mL, o que pode levar à hipercalcemia.

Vitamina D e o Sistema Nervoso Central (SNC)

No SNC, o receptor da vitamina D (RVD) e a enzima 25-hidroxivitamina D3, A1α-hidroxilase são encontrados em neurônios e células gliais tanto em roedores quanto em seres humanos. A distribuição do VDR no cérebro humano é semelhante à observada em roedores. No cérebro humano, foram observadas as marcações mais intensas tanto do receptor quanto da enzima no hipotálamo e nos grandes neurônios da substância negra. No entanto, também foram encontradas atividades imunológicas intensas no córtex pré-frontal, giro cingulado, hipocampo, fímbria, giro denteado e núcleo caudado putamen. Devido à importância dessa vitamina em diversos processos cerebrais como neuroimunomodulação, estresse oxidativo e neuroplasticidade, sugere-se seu potencial papel no desenvolvimento de transtornos psiquiátricos.

Vitamina D na Fisiopatologia do Transtorno Depressivo Maior (TDM)

O TDM é um distúrbio neuropsiquiátrico que se caracteriza pela presença de humor deprimido, baixa autoestima, perda de interesse ou prazer em atividades antes apreciadas (anedonia), fadiga e outros sintomas associados. Trata-se de um transtorno altamente incapacitante e com alta prevalência, afetando aproximadamente duas vezes mais mulheres do que homens.

Embora a fisiopatologia do TDM seja complexa, diversos mecanismos têm sido propostos como desempenhando um papel fundamental no desenvolvimento dos sintomas depressivos. Estes incluem comprometimento do suporte neurotrófico e da neurogênese, neuroinflamação, disfunção na sinalização bioenergética, estresse oxidativo e excitotoxicidade. Nesse contexto, a vitamina D tem sido considerada como um elemento relevante, uma vez que desempenha um papel na neuroimunomodulação e na neuroplasticidade, além de poder reduzir o estresse oxidativo.

Suplementação de Vitamina D e Sintomas Depressivos

A maioria dos estudos clínicos que abordam o possível papel da vitamina D no TDM são de natureza transversal e de coorte. Esses estudos estabeleceram uma associação inversa entre os níveis sanguíneos de 25(OH)D e os sintomas depressivos, bem como o risco de desenvolver TDM. No entanto, é importante ressaltar que, apesar de a maioria dos estudos em humanos terem encontrado uma associação entre os níveis séricos de 25(OH)D e os sintomas depressivos e/ou o risco de TDM, alguns estudos não conseguiram identificar associações significativas.

Com isso, a maioria dos estudos relatam que a suplementação de vitamina D tem efeito positivo na depressão, seja quando administrada sozinha ou em combinação com fluoxetina ou probióticos. Além disso, é importante ressaltar que a suplementação nesses estudos foi realizada em indivíduos que não apresentavam um diagnóstico primário de TDM, mas sim em casos nos quais os sintomas depressivos estavam associados a diferentes condições clínicas, tais como obesidade, esclerose múltipla, doença de Crohn, diabetes mellitus tipo 2 e colite ulcerosa.

Sendo assim, pode haver uma relação entre os efeitos benéficos da suplementação e a presença de quadros clínicos metabólicos e/ou inflamatórios, considerando que a vitamina D possui propriedades anti-inflamatórias e desempenha um papel importante na regulação da glicose. 

Vitamina D na Fisiopatologia dos Transtornos de Ansiedade

A ansiedade é descrita como um estado emocional negativo, difuso e desagradável que surge da antecipação de um perigo potencial, resultando em hipervigilância e estado de alerta, mesmo na ausência de perigo imediato. Quando ocorre de forma ocasional, a ansiedade é considerada um aspecto normal do comportamento emocional e desempenha um papel importante na adaptação e sobrevivência dos organismos, permitindo uma resposta rápida de defesa diante de possíveis ameaças. No entanto, quando a ansiedade se torna persistente ou desproporcional, pode ser considerada como um transtorno patológico. Os transtornos de ansiedade abrangem condições como transtorno de ansiedade de separação, mutismo seletivo, fobias específicas, fobia social, transtorno do pânico, agorafobia e transtorno de ansiedade generalizada.

A farmacoterapia e a psicoterapia são os tratamentos mais frequentemente utilizados para transtornos de ansiedade. No entanto, apesar dessas opções terapêuticas disponíveis, o tratamento desses transtornos ainda não é eficaz, uma vez que os medicamentos atualmente disponíveis não são eficazes para todos os pacientes ou para todos os tipos de transtornos de ansiedade e também podem causar uma variedade de efeitos adversos, o que reduz a adesão ao tratamento.

Foi observado que o estresse oxidativo e a inflamação desempenham um papel na fisiopatologia dos transtornos de ansiedade. Recentemente, uma revisão destacou que compostos com capacidade de neutralizar o estresse oxidativo e a neuroinflamação podem ser considerados candidatos promissores no tratamento da ansiedade. Nesse contexto, a vitamina D, devido às suas propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias, tem sido investigada como uma candidata para o tratamento de transtornos de ansiedade.

Vitamina D e Transtornos de Ansiedade na Literatura

Em relação à suplementação de vitamina D e sintomas de ansiedade, alguns estudos relataram uma associação entre a suplementação de vitamina D e a redução dos sintomas de ansiedade. No entanto, outros estudos não encontraram uma relação significativa entre os níveis de vitamina D e a diminuição dos sintomas de ansiedade. É importante ressaltar que a maioria desses estudos foi projetada para avaliar sintomas de ansiedade em associação com diferentes condições clínicas. Até o momento, nenhum ensaio clínico específico foi realizado em pacientes com transtornos de ansiedade para avaliar o efeito da suplementação de vitamina D.

Prática Clínica

Além de desempenhar um papel bem estabelecido na regulação do cálcio, fosfato e saúde óssea, há evidências provenientes de estudos pré-clínicos e clínicos que sugerem que a vitamina D pode ter efeitos benéficos na saúde mental. Considerando essas informações, embora sejam necessários mais estudos, a suplementação de vitamina D pode ser considerada uma estratégia terapêutica promissora, mas que merece mais investigações por parte dos pesquisadores.

Referências Bibliográficas

Assista o vídeo na Science Play: Vitamina D: muito além de uma vitamina

Casseb GAS, Kaster MP, Rodrigues ALS. Potential Role of Vitamin D for the Management of Depression and Anxiety. CNS Drugs. 2019;33(7):619-637.

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