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  • Foto do escritorKcal da Science Play

Obesidade e Tireoide: Quem chegou primeiro, o ovo ou a galinha?

A relação entre problemas da tireoide e obesidade tem sido alvo de uma longa e complexa investigação na área da saúde. A dúvida que muitas vezes surge é se distúrbios tireoidianos, como o hipotireoidismo, podem ser responsáveis pelo ganho de peso, ou se a obesidade, por sua vez, exerce influência sobre o funcionamento da tireoide. 

Essa interação intrigante entre a função tireoidiana e o peso corporal suscita questões fundamentais sobre como esses dois fatores se relacionam e como podem impactar a saúde geral das pessoas. Para compreender melhor essa dinâmica, é necessário examinar as complexas interações entre o sistema endócrino da tireoide e o equilíbrio do peso corporal, o que lança luz sobre questões importantes relacionadas à obesidade e à saúde tireoidiana.

Com uma forma que lembra a de uma borboleta, a glândula tireoide encontra-se posicionada na parte frontal do pescoço, logo abaixo da cartilagem tireóide, frequentemente conhecida como Pomo de Adão. Esta glândula desempenha um papel crucial na regulação das funções de órgãos vitais, incluindo o coração, cérebro, fígado e rins, ao secretar os hormônios triiodotironina (T3) e tiroxina (T4) ao estímulo do TSH. 

Com o aumento da epidemia de obesidade em todo o mundo, a obesidade tem recebido cada vez mais atenção e é considerada um desafio significativo para a saúde pública em escala global devido às suas amplas consequências adversas para a saúde humana, como o aumento do risco de diabetes, doenças cardiovasculares e cânceres.

A incidência de distúrbios da tireoide, que incluem principalmente disfunções tireoidianas e doenças tireoidianas autoimunes estão aumentando nos últimos anos. As disfunções tireoidianas englobam o hipertireoidismo e o hipotireoidismo, ambos podendo ser categorizados em estágios subclínicos (apenas com alterações no TSH) e estágios manifestos (com alterações tanto no TSH quanto nos hormônios tireoidianos).

As doenças autoimunes mais comuns da tireoide são caracterizadas pela presença de autoanticorpos contra antígenos tireoidianos, como o anticorpo do receptor de TSH (TRAb), o anticorpo da peroxidase tireoidiana (TPOAb) e o anticorpo da tireoglobulina (TGAb). Elas têm dois principais subtipos: a doença de Graves (GD) e a tireoidite de Hashimoto (HT), que apresentam diferentes manifestações clínicas, embora compartilhem mecanismos imunogenéticos semelhantes.

Pacientes com distúrbios da tireoide também apresentam um alto risco de outras doenças não relacionadas à tireoide, como doenças cardiovasculares, câncer, obesidade e resultados adversos na gravidez. Pacientes com disfunções tireoidianas ou doença de Graves necessitam de tratamento médico de longo prazo ou acompanhamento para otimizar o prognóstico. 

A identificação de fatores de risco para distúrbios da tireoide pode auxiliar os profissionais de saúde a reconhecerem indivíduos em risco de desenvolver ou que já possuem distúrbios tireoidianos subclínicos. Isso permite oferecer tratamento imediato para melhorar os resultados dos pacientes e é fundamental para compreender os mecanismos fisiopatológicos subjacentes a esses distúrbios tireoidianos. 



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Obesidade e Tireoide: Qual a relação?

Embora estudos revelam que disfunções imunológicas, elementos ambientais e fatores genéticos contribuam para a patogênese dos distúrbios da tireoide, sua patologia ainda não está completamente clara. É amplamente conhecido que a obesidade está associada a alterações hormonais, incluindo o hormônio estimulante da tireoide (TSH) e hormônios tireoidianos, além de estar acompanhada por diversas doenças endócrinas e metabólicas. 

Clinicamente, é sabido que o hipotireoidismo não tratado pode induzir ao ganho de peso e a diminuição do metabolismo basal, levando-nos a propor a hipótese de que a relação entre obesidade e doença da tireoide pode ser bidirecional. Além disso, se essa relação for realmente bidirecional e se a obesidade de fato influenciar o risco de distúrbios tireoidianos, ainda não está completamente esclarecido como a obesidade afeta o risco de disfunções tireoidianas e o impacto sobre o risco de autoimunidade da tireoide.

Pensando nisso, o estudo “The Impact of Obesity on Thyroid Autoimmunity and Dysfunction: A Systematic Review and Meta-Analysis”, publicado em 01 de Outubro de 2019, na Revista Frontiers in Immunology, levantou essa questão central sobre distúrbios tireoidianos e obesidade. Com um total de 22 estudos, observou-se que clinicamente é fácil observar que pacientes com hipertireoidismo frequentemente perdem muito peso e o recuperam após a remissão. 

Em contraste, pacientes com hipotireoidismo tendem a ganhar algum peso e a perder modestamente após a reposição hormonal da tireoide. Portanto, é senso comum considerar a obesidade como frequentemente secundária ao hipotireoidismo? Provavelmente não, certamente o ganho de peso relacionado ao hipotireoidismo é causado pelo aumento da reabsorção de sódio nos túbulos renais, e onde há sódio com certeza haverá água. 

Além disso, documentos mostram que esse ganho de peso é de aproximadamente 4 a 5 kg, puramente de retenção hídrica resolvida após a correção com hormônio devidamente calculado baseado no peso corporal (1.6 – 1.8 mcg/kg/dia segundo a American Thyroid Association). Ou então, pensando em hipotireoidismo de Hashimoto também haverá mudança de dose. 

Não existe tratamento de hipotireoidismo com dose de 25 mcg, a não ser que seja paciente idoso mas isso é conversa para outro momento. Além disso, os mecanismos pelos quais o hipotireoidismo causa aumento de peso são supostamente alcançados por meio de alterações no gasto energético e no apetite.

Distúrbios Tireoidianos: Vilã ou Consequência da Obesidade?

Outro componente importante nessa associação é a leptina, que desempenha um papel na inflamação crônica associada a interleucina 6, podendo resultar em alterações morfológicas na tireoide e restringir a expressão da tireoglobulina. Isso, por sua vez, pode induzir alterações nos níveis dos hormônios tireoidianos em indivíduos obesos.

Certamente, acredita-se que a leptina, um hormônio produzido pelos adipócitos, desempenha igualmente um papel na inflamação crônica, o que pode resultar em alterações morfológicas na tireoide. Além disso, a leptina pode restringir a expressão do simporte sódio/iodo da tireoglobulina, o que induz mudanças nos níveis dos hormônios tireoidianos em indivíduos obesos. 

Outros estudos também sugerem que esse estado de inflamação crônica presente na obesidade pode afetar a função da tireoide, modulando a expressão e a atividade das deiodinases. Já ouviu falar sobre o T3r em pacientes obesos? Pouca implicação clínica mas a fisiologia ajuda a entender. 

Portanto, podemos sugerir que a relação entre obesidade e distúrbios da tireoide é bidirecional, e a obesidade está significativamente associada ao hipotireoidismo e  aos níveis de TSH e TPO. Esses achados indicam que a prevenção da obesidade desempenha um papel crucial na prevenção dos distúrbios da tireoide.

Referência bibliográfica

Artigo: SONG, Rong-Hua; WANG, Bin; YAO, Qiu-Ming; LI, Qian; JIA, XI; ZHANG, Jin-An. The Impact of Obesity on Thyroid Autoimmunity and Dysfunction: a systematic review and meta-analysis. Frontiers In Immunology, [S.L.], v. 10, 1 out. 2019. Frontiers Media SA.

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