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Por que a sua prescrição com análogo de GLP-1 deu errado?

Recentemente, a prescrição dos análogos de GLP-1 tornou-se algo extremamente “comum” na prática médica. Podemos até dizer que pelo ponto de vista do paciente que quer resultados rápidos e com o mínimo de esforço possível, que hoje o médico no qual trata pacientes com obesidade e resistência à insulina que não prescreve medicamentos como o Ozempic®, está “ultrapassado”.  

A própria Novo Nordisk, fabricante do Ozempic®, Victoza® e Saxenda®, ultrapassou a Nestlè e tornou-se a segunda maior empresa da Europa em 2023, ficando atrás apenas da LVMH, dono da Louis Vuitton. Por isso, essa busca pelo medicamento do momento, me leva a te perguntar: 

Você sabe quando, para quem e como prescrever alguma dessas canetinhas, os análogos de GLP-1?



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Um estudo sobre análogos de GLP-1 para você entender

O estudo Selection of Antiobesity Medications Based on Phenotypes Enhances Weight Loss: A Pragmatic Trial in an Obesity Clinic, publicado na Obesity em 24 de março de 2021 desvenda os tipos de pacientes que melhor se adequam a determinada medicação para o tratamento do sobrepeso e da obesidade. Dessa forma, fica evidente que não é só colocar uma receita com alguma caneta emagrecedora associado a outro controlador de apetite, e pronto, desvendou o caminho do sucesso para ser um profissional bem sucedido nessa história de perda de peso.

Pois em muitos casos, o paciente retornará falando que a medicação não fez efeito, não deu resultado. E onde estará o problema? Talvez, baixa adesão ao tratamento, falta de compromisso em comer comida de verdade e fazer atividade física? Talvez. Porém, aposto que você já ouviu em algum momento da sua vida: “Ozempic®? Tomei sim, e não tive resultado algum.”

O que o estudo avaliou?

Dentro de um centro de emagrecimento durante 12 meses, o estudo avaliou 450 pessoas com obesidade e os classificou com relação a composição corporal, gasto energético em repouso, saciedade, comportamento alimentar, afeto e atividade física. Essas variantes foram medidas por estudos e questionários validados. Nestas circunstâncias, a população do estudo foi elencada de acordo com perfis fenotípicos para classificá-las dentro de grupos com mesmo comportamento. 

Com isso, 312 pessoas foram divididas randomicamente para serem tratadas baseado no seu perfil ou na velha conversa de “comer menos e gastar mais”. Dessa forma, não foram tratadas devidamente de acordo com o tipo alimentar. No fim, o desfecho primário observado em 1 ano para os dois grupos foi a perda de peso. 

Em seguida, esses grupos foram expostos a medicações antiobesidade como “Phentermine, Phentermine/Topiramate, Bupropion/Naltrexone, Lorcaserin e Liraglutide.” Embora a Phentermine e a Lorcaserin, respectivamente conhecidas por Femproporex e Belviq, foram banidas pela Anvisa aqui no Brasil, sabe-se que hoje no mercado nacional há drogas parecidas como algumas anfetaminas e antidepressivos.

O resultado do estudo demonstrou que o grupo avaliado de acordo com os fenótipos obteve 15.9% de perda de peso. Além disso, os indivíduos que perderam mais de 10% do peso foram 79% de toda a amostra. Enquanto isso, o grupo sem avaliação de características comportamentais conseguiu emagrecer 9% e apenas 34% desta outra amostra conseguiu emagrecer mais de 10%.

Mas você conhece os fenótipos da obesidade?

Foram encontrados quatro fenótipos entre 383 indivíduos da população estudada. Entre eles estão o hungry brain (saciedade anormal), emotional hunger (comer hedônico), hungry gut (outro com saciedade anormal), e slow burn (diminuição da taxa metabólica basal). Por outro lado, em 27% desses voluntários observou-se dois ou mais perfis de fome. 

Na sua prática clínica, como reconhecer os fenótipos da obesidade?

Certamente, a história clínica com uma boa anamnese é o ponto chave dessa trajetória. Ao sentar-se na frente do seu paciente, é necessário que você entregue as perguntas chaves para que ele te devolva a confiança de que não haverá julgamento, risadas ou piadas. Você, profissional da área da saúde, deve saber que o indivíduo na sua frente pode estar há mais de 10 anos brigando com o peso. Por isso, conhecimento técnico e habilidade interpessoal são exigências para que você seja o último médico que essa pessoa buscou, pois encontrou o resultado, o acompanhamento e a confiança que buscou por anos. 

Hungry Brain

O cérebro faminto revela-se por calorias excessivas que precisam ser ingeridas antes do paciente sentir-se satisfeito. É a pessoa que come até finalizar a quantidade que foi servida a mesa. Dessa forma, percebe-se que é importante a sua pergunta ao paciente sobre as quantidades que ele come. Pois, um quadradinho de uma barra de chocolate não faz diferença num todo. Agora, sentar e saciar-se só quando comeu a barra inteira já revela o principal desenho deste fenótipo. 

Emotional Hunger

O comer emocional mostra-se por humor negativo como a raiva e a ansiedade. Por exemplo, há o desejo e comportamento de busca de recompensa no alimento. É um paciente capaz de fazer a dieta corretamente. Porém, numa situação de ansiedade é capaz de desestabilizar-se e entrar num ciclo vicioso onde ele não consiga mais voltar ao plano alimentar. É o paciente que belisca a comida o dia todo quando sente-se ansioso. 

Hungry Gut

O “intestino faminto” é o paciente com rápido esvaziamento gástrico. Esse é o tipo de paciente que precisa de duas refeições pela manhã antes do almoço. Ou seja, para ele o fracionamento alimentar funciona muito bem pois a cada duas ou três horas sente fome.

Slow Burn

Esse nome foi dado pela baixa capacidade deste paciente em queimar gordura pela diminuição da sua taxa metabólica basal. É um paciente que apresenta inflexibilidade metabólica e pouca massa muscular.

Fenótipos da Obesidade vs. Sexo

Dessa maneira, no estudo avaliado, o gênero masculino ou feminino revelou ser fator inicial “variável-chave” na estratificação do fenótipo da obesidade. Por exemplo, nos fenótipos “emotional hunger” e no “hungry gut” as mulheres se destacaram mais. Em contrapartida, no “hungry brain” os homens lideraram. 

Tratamento Assertivo com Análogo de GLP-1 para Obesidade

Agora que você aprendeu os diferentes tipos de fome, precisa aprender a tratar cada um deles. Por isso, basta entender que ao considerar apenas o mecanismo bioquímico e fisiológico, o Análogo de GLP-1 não vai dar certo para todo mundo. Por isso, fica muito claro que o “comer hedônico” ou “emotional hunger” se dá melhor com a Bupropriona e Naltrexone por controlar o estímulo de vício e recompensa. E dessa forma, de acordo com esse estudo, as canetinhas emagrecedoras são mais indicadas para os pacientes com rápido esvaziamento gástrico.

É por isso que seu paciente não responde ao tratamento com análogo de GLP-1 

Estamos perdendo a guerra contra a obesidade. Por um lado, mais alternativas de tratamentos são propostas como remédios via oral, injetáveis com associação de dois hormônios intestinais incretínicos (GLP-1 + DIP) como o Tirzepatide, ou até três ou mais que estão ainda em fase de estudos. Sem contar, ainda, tratamentos mais agressivos como a gastroplastia. E por outro, a projeção da World Obesity 2023 é que 41% da população brasileira esteja obesa em 2025. Sem contar, ainda, com o sobrepeso. 

Por isso, é de suma importância termos ferramentas que são úteis no dia a dia do consultório. Contudo, não existe paciente que não responde ao tratamento com medicamento antiobesidade. Com certeza, para todo medicamento e tratamento haverá indivíduos que respondem muito bem e outros que não respondem. E isso, não quer dizer que se o seu paciente respondeu mal a um tipo, não terá resultado em todos os outros. Consequentemente, o nosso “pulo do gato” como médicos, está em saber que as melhores respostas estão quando unimos o padrão alimentar ao tratamento correto.  

Referências Bibliográficas

Acosta A, Camilleri M, Abu Dayyeh B, Calderon G, Gonzalez D, McRae A, Rossini W, Singh S, Burton D, Clark MM. Selection of Antiobesity Medications Based on Phenotypes Enhances Weight Loss: A Pragmatic Trial in an Obesity Clinic. Obesity (Silver Spring). 2021 Apr;29(4):662-671. doi: 10.1002/oby.23120. Erratum in: Obesity (Silver Spring). 2021 Sep;29(9):1565-1566. Erratum in: Obesity (Silver Spring). 2022 Jul;30(7):1521. PMID: 33759389; PMCID: PMC8168710.

Sugestão de Estudo: World Obesity Atlas 2023

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